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quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Crítica: Morgan Delt- Phase Zero
A Sub Pop tem-nos habituado ao longo dos anos com bandas de uma fragilidade sonora imensa, abençoadas pela nebulosidade do íncrivel mundo da editora americana. Percursores influentes como "Metz", "I Love You Honey Bear" ou o mais recente "Depression Cherry"... Toda essa nebulosidade viaja ocasionalmente até à década de 70 onde os sintetizadores fundem-se de forma mais fluída com as guitarras reverberadas que a cada acorde mudam de tom e viajam para mundos paralelos, onde a repetição, as haunted samples proporcionam medo, ou pânico...
Phase Zero é mais um esforço revivalista que vem a sublinhar toda a importância que Innerspeacker viria a ter em toda a cultura psicadélica. Gravado na Califórnia em casa, Delt convida o ouvinte a entrar num mundo perturbado e autista repleto de constrangimento sonoro, esquizófrenia e ecos sintetizados numa sala cheia de reverb e delay infinito. Toda essa magia experimental e psíquica fazem lembrar Pink Floyd numa fase ambulatória, esse Garage não era tão audível desde Innerspeacker, no entanto a produção soa muito mais arrojada que essa estreia brilhante na terra de baixo, embora ambas gravadas em casa sobre condições absurdas.
O disco começa com "I Don't Wanna See What's Happening Outside" e aqui espelha-se de forma menos subtil possível tudo aquilo que Delt andou a "comer" ao longo da sua infância, começando pelo título longo, fazendo referência a "Come Down Softly To My Soul" de Spaceman 3, mas não é só no nome... A timidez vocal e o sintetizador Blue Velvet criam um clima introspetivo, a repetição de "I don't wanna" e o início repentino de "System of a 1000 Lies" acusam o flagrante progressivo e o mantra infinito, como se ambas fossem só uma canção.
"Another Person" é também uma canção épica de ternura melódica, exprimida e espremida na escolha de notas mais cuidada, refinada e encaixada na própria temática angelical da faixa, não deixando outra alternativa ao ouvinte a não ser escutar e desejar nunca mais acabar e quando por fim acaba solta mais haunted samples, deixando o ouvinte num estado de expetativa total. Isto é perfeição pop.
Essa expetativa é correspondida por 3 minutos e 47 segundos de espasmos melódicos, vidros sintetizados partem-se provocando "Sun Powers", um dos grandes momentos do ano. São nesses momentos mais díspares e experimentais que Delt revela-se um compositor astuto e sem medo de recriar todo esse pop psicadélico reinventado vezes sem conta por mestres do ofício como Beatles ou Pink Floyd, mas com um twist pessoal, moderno e só dele.
Phase Zero é uma estreia invejável espelhando todas as suas influências em 10 faixas hiperativas, esquisitas e ambíguas, que de forma mais subtil possível reúnem todos os discos clássicos de Pop Psicadélico feitos de 1960 até 2010 num só. Essa visão distorcida de Delt só se torna mais nítida a cada audição, até chegar a um estado de beleza descomunal e de grandeza pop.
Ouçam "Phase Zero"
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Crítica- Dinosaur Jr.- Give a Glimpse Of What Yer Not
Há partida podiam chamar louco a J Mascis ou acusar o génio do noise de ter uma crise de meia idade, mas "Give A Glimpse Of What Yer Not", sem soar a pretensioso de uma banda experiente que já conquistou tudo na sua era de ouro do underground americano (chegando até a ir em tour com os Sonic Youth em 1987), Dinosaur Jr. conseguem manter a sua frescura e o fator cool que os tornaram nessas mesmas lendas do underground. Mas há uma diferença, essa maturidade é mais palpável que nunca e J Mascis tem perfeita consciência disso, o que o torna mais frágil que nunca, mas mesmo nesses momentos mais sérios do disco como em "Be a Part" ou "I Told Everyone" J nunca dá a sensação de estar totalmente entregue a esta condição de midle age rocker, aliás, ele contraria muito bem qualquer estigma que possa haver da sua idade no rasgante "Goin Down" e no Punk Pop "Tiny", mas é na composição do primeiro que vemos códigos preliminares que J talvez possa estar a usar para tentar explicar algo: "I can't go more than a day, I can't face myself (...) Are you with me? Are you with me when I'm gone? Are you with me? Are you with me? Come along"...
O disco começa a ficar ainda mais darker, sempre com J a dar aquele falso sentido de hostilidade que dão graciosidade ao génio, "Good To Know" é uma vénia a toda a skill de Mascis, todos os riffs inventados desde 1984 até aqui, toda a história de Dinosaur Jr. acabam por vir parar a essa faixa. Depois o Doom "Walk for Miles", marca todo esse percurso da banda e a rouquidão sugere cansaço mas Mascis levanta-se e grita "Set my heart is too" e apercebemo-nos que Mascis bebe da fonte da juventude.
Para terminar nas refletivas "Lost All Day", a sensivelmente afetiva "Mirror" que começa com confissões de uma vida "I've been crawling around since I met you" e no refrão "Waste of Time" sugerem uma vida inteira em busca de algo inalcançável. Para terminar com "Left/Right" que podia ter sido um êxito indie rock se tivesse sido libertado de 1992 a 1996.
"Give a Glimpse Of What Yer Not" é um dos esforços mais dignos da banda. Na capa vemos um homem a equilibrar-se no cume da montanha... De certa forma Dinosaur Jr. têm feito isso ao longo dos anos, adaptando-se a tendências, géneros musicais, culturas, tecnologias... E tudo graças ao seu maior impulsionador que teima em viver como se ainda estivesse nesses loucos anos 80. Toda esse esforço em trazer esse bocado de underground para os tempos modernos tornam J Mascis imortal, aconteça o que acontecer.
Ouçam "Give a Glimpse Of What Yer Not"
sábado, 27 de agosto de 2016
A virtude Sónica de Sunflower Bean
Certamente, o título do primeiro álbum dos Sunflower Bean chama-se Human Ceremony e não foi escolhido ao acaso. A humanidade sempre inventou rituais para se ligar ao Divino. Esta necessidade de conexão com a força vital do universo, que muitos filósofos glorificaram e outros ignoraram está estampada em todos os acordes do disco de estreia da banda nova-iorquina.
| Fuzzed Out, Innerspeacker nostalga "Human Ceremony", de Sunflower Bean |
Alguém que não eu adoraria ouvir este disco em cogumelos. Não que os Sunflower Bean sejam psicadélicos no sentido em que uma banda como Spacemen 3 e Spiritualized o são, naquele sentiudo de repetição extensiva. Se os Smoke City e os Cloud Nothings fizessem um filho, que posteriormente desenvolvesse uma fixação por My Bloody Valentine (quem não?) ele tocaria nesta banda.
Falei em cinco bandas estabelecidas para falar de uma banda emergente, o truque de quem não domina a prosa e/ou o tema. Mas neste caso, é justificável: Ainda não tinha ouvido um álbum de “rock” (sim, eu sei) deste ano que não me desse vontade de dormir. E quando soube que Pitchfork escreveu bem sobre estes tipos, resisti à ideia de os ouvir. Porque a Pitchfork (e a Noisey também) é uma merda. Mas os Sunflower Bean não são uma banda-Pitchfork. Há momentos neste disco (Easier Said p.e.) menos enérgicos e mellow de uma forma que seria chunga se não fossem seguidos de cargas de porrada sónica.
Sunflower Bean tem as influências todas no sítio. Tem a eletricidade. Tem o fuzz gostoso nas guitarras. Tem uma bateria com aquela simplicidade de que o rock cada vez mais ressaca. Mas acima de tudo, tem uma malha que soa a Deus. Mesmo que não acreditem num Deus intervencionista, é impossível ouvir a "I Was Home" sem nos sentir no centro do que os índios Cheyenne chamam "O Grande Círculo do Céu, da Terra e dos Sonhos". Não estou queimado, não tenho um charro ao canto da boca e não estou a dizer “Deixa a música entrar man...” enquanto fecho os olhos. Simplesmente "I Was Home" entrou para mim na “caixinha” dos temas incontornavelmente perfeitos. Bem ao lado da "After Hours" dos Velvet*, da Sexual Healing do Gaye, da "Canção de Embalar" do Zeca e da "Wonderful World" do Sam Cooke.
Se calhar faço estas comparações porque estou louco. Mas não quero saber.
O Human Ceremony vai passar a fazer parte das minhas homilias. Recomendo-vos que façam o mesmo. Porque mesmo que a banda sonora do momento final seja Capitão Fausto, ascender aos céus só será possível com fé no Rock n Roll. Os Sunflower Bean são um sinal, e dizem-nos “Não deixem de acreditar! Let's make rock & roll not great again!”
Texto de Hélder Menor
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Crítica: Frank Ocean- Blonde
Chegou por fim o muito aguardado segundo disco oficial, pelas burocracias da divulgação mundial que não tolera álbuns visuais. Muito menos imediato e subtil que o clássico debut "Channel Orange", Blonde é imperceptível à primeira vista. A fragilidade emocional que torna Frank único continuam presentes no sophomore, no entanto não é na composição honesta e delicada que o disco capta os seus momentos mais brilhantes, é na produção arrojada e extensamente refinada que fazem de "Blonde" uma das audições mais sofisticadas do ano, embora os vocais de Frank sejam usados maioritariamente pelo decorrer do disco como um instrumento/trunfo.
A música começa com o haunted "Nikes", Frank aborda o consumo, a malícia e a falsidade de pessoas que se cruzaram na vida dele após a sua ruptura pós "Channel Orange". Aqui fica o sintetizador inicial que faz lembrar uma sample retirada de por exemplo "To The Last" de James Blake... Aqui Frank escreve um novo capítulo na história do R&B moderno, onde a produção e a melodia contam tanto ou mais que os vocais. O disco continua a afogar-se numa piscina de brilhantismo nascente, onde Frank quer captar a atenção do ouvinte from the gecko*... Ivy é um esforço cuidado e imprescindível no que toca a todo o R&B feito no futuro. A guitarra pedal drenched solarenta e tímida deixam todo o pensamento de Frank voar em palavras eternas e mais intencionais que nunca: "I thought that I was dreaming, When you said you loved me, It started from nothing, I had no chance to prepare, I couldn't see you coming, It started from nothing, I could hate you now, It's quite alright to hate me now (...) If I could see through walls, I could see you're faking, If you could see my thoughts, You would see our faces", sugerem uma mágoa profunda que nunca será ultrapassada ou sequer esquecida. Essa mágoa converte tudo aquilo que Frank escreve em pura dor palpável. Pink + White (com Beyonce) são outros esforços memoráveis, Frank solta um grito de confiança e as suas cordas soltam-se num Soul e vocais penados e oscilantes. O Interlúdio "Be Yoursef" será outra lição a reter mas é num estado muito precoce do disco que Frank atinge uma grandeza inalcançável, tanto a nível de composição ou voz, claro, enaltecidas pela super produção sinth-full de "Solo", um clima cinzento imagina Frank num traje de anjo e um coro gospel à sua atrás a abençoar cada esforço melódico. A isto chamamos de vanguarda do R&B, há medida que o disco vai-se tornando ainda mais profundo e confuso em "Skyline" (com Kendrick Lamar), sempre com grande nota de destaque para os instrumentais escolhidos que colhem sanidade e purificação no seu estado mais onírico possível.
Dando a ilusão, por vezes, de fundir o Rap com o Soul, Frank Ocean também foge dos capítulos inconvencionais e explora temáticas funky-groove orientadas para pistas de dança seletivas, como no Boom Bapy "Nights" ou "Close To You" e aqui espelha-se toda a influência que James Blake possa ter tido na escolha específica dos beats/instrumentais ou mesmo em certos momentos onde Frank escolhe arranjos vocais mais arrojados. Antes em "Pretty Sweet" capta-se uma faceta mais experimental, num caos de dissonância e eco que antevêem a faixa.
Frank termina com três chaves de ouro introspetivas e alienadas como certos momentos da sua composição o sugerem: "I'm living over city, And taking in the homeless sometimes, Been living in an idea, An idea from another man's mind, Maybe I'm a fool, To settle for a place with some nice views, Maybe I should move, Settle down, two kids and a swimming pool, I'm not brave, I'd rather, live outside, I'd rather live outside, I'd rather go to jail, I've tried hell", extraí-se todo esse descontentamento e desconforto em "Seigfried", para terminar com os também escuros "Godspeed" (com Kim Burell) e Futura Free.
De hoje em diante a história do Soul moderno, Nu-Jazz Fusions, Rap oriented e claro o R&B é dividido em duas linhas de tempo: Antes de "Blonde" e depois de "Blonde".
*from the gecko- Desde o inicio
Ouçam "Blonde" de Frank Ocean na íntegra, aqui
domingo, 21 de agosto de 2016
"Blond" é o muito aguardado segundo longa-duração de Frank Ocean
Depois de vários "jajões" (no calão mais usado na tuga para "falsa partida"), Frank Ocean espanta o mundo com o seu muito antecipado e hiperboladamente falado "Blond", segundo disco do cantor de R&B, disco que sucede ao clássico instântaneo "Channel Orange", que inspira uma nova geração de cantores negros a fundirem o Soul e o R&B com outras auditivas urbanas como o Rap ou o hip-hop.
O extraordinário são as várias colaborações no álbum: Frank Ocean dá crédito a dois dos rappers mais elogiados da sua geração, Kendrick Lamar e Kanye West; Produtor britânico Jamie XX e lendas Beatles e o recente David Bowie também figuram nos créditos, sendo que para este disco Frank conta também com influências de Beach Boys.
| Capa alternativa de "Blond" |
01 Nikes
02 Ivy
03 Pink + White
04 Be Yourself
05 Solo
06 Skyline To
07 Self Control
08 Good Guy
09 Nights
10 Solo (Reprise)
11 Pretty Sweet
12 Facebook Story
13 Close to You
14 White Ferrari
15 Siegfried
16 Godspeed
17 Futura Free
Vejam em baixo "Nikes" de Frank Ocean
Façam stream de "Blond" aqui
Oiçam "Endless" na íntegra aqui
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Álbum da semana especial Xita Records/Maternidade: Primeira Dama- Histórias por contar + Filipe Sambado- Vida Salgada
Primeira Dama são as gravações de quarto escritas pelo também entusiasta adolescente Manel Lourenço, que viria a tornar-se num dos jovens mais inconformados do movimento, ansiedade essa que torna-se num dos pilares da também hiperativa/juventude ativa editora de Lisboa Xita Records, com fortes amizades com as Labels Maternidade, que extraí outros artistas já estabelecidos como Luís Severo ou Felipe Sambado que disponibiliza-se para gravar e produzir estas faixas no próprio estúdio da Maternidade; Ou fortes influências da editora pioneira Cafetra Records, que apresenta um leque de Singer/Songwriters fundamentais para a influência de não só Primeira Dama como também Lúcia Vives (Éme, Lourenço Crespo, Sallim ou B-Fachada)...
Nessa cabine da Maternidade repleta de reverb e delay Manel gravou faixas melancólicas e de um dramatismo por vezes angustiante: "Não Passa Nada" é uma despedida de amor, envolto numa melodia tocante de colarinho preto. No refrão vocais abatidos, penosos e amargurantes... "Bilingue" são três minutos desconfortáveis, pop irrequieto e maligno, cheio de repetição lírica, vocais imperceptíveis incapazes de compreender as verdadeiras intenções de Manel: se é incomodar, assustar ou alertar...
Antes de "Mareh" o sónico "Faixa Etária", uma guitarra dissonante e uma bateria com a marca de Sambado. Toda essa eletricidade, cadência, ecletismo e trip-hop espacial do refrão delay-drenched consolidam a imagem de marca da Label: comunhão, amizade, drum-machines e sintetizade...
"Mono" traz mais deprimência sonora e outra letra honesta sobre o amor e a saudade para depois terminar com a faixa que dá nome ao disco "Histórias por contar".
Manel Lourenço expõe as suas faixas com maior sinceridade, entrega e carência possível, captando toda a sensibilidade, subtileza e suavidade de uma cantautora feminina compor e apresentar os seus temas.
Histórias por Contar, Xita Records/Maternidade 2016
Vida Salgada são temas desiguais, lições de moral ou simples histórias de vida que retratam auto-estima, sentidos não obrigatórios de vida... Filipe é ele também um artista desigual que escreve sobre tudo o que vê e sente acontecer à sua volta: do cintilante "Vida Salgada" sobre o amor insonso e a necessidade de algo novo! Os acordes tímidos de "Tou Confuso"... Aí Filipe destaca a maneira como as pessoas caem muito facilmente numa pré-definição de acontecimentos e tendências ao invés de marcarem a diferença sem medo de serem elas próprias. Esta escrita honesta e consciente dão caráter e integridade a Sambado, um compositor humilde de canções identificáveis por outros jovens díspares...
Do contagiante neo-psich "Roda a Garrafa" até ao triste e refletivo "Aprender e Ensinar", a sinestesia vocal etérea de "Nó do Peito" para fechar com a chave de ouro "Já Não Vou Sair Daqui", temas de uma simplicidade bruta mas que pegando nesse mistério e subtileza lírica tornam-no num dos artistas mais complexos e difíceis de decifrar da cena, não será este disco a fazê-lo.
Vida Salgada, Spring Toast Records/Maternidade 2016
Nessa cabine da Maternidade repleta de reverb e delay Manel gravou faixas melancólicas e de um dramatismo por vezes angustiante: "Não Passa Nada" é uma despedida de amor, envolto numa melodia tocante de colarinho preto. No refrão vocais abatidos, penosos e amargurantes... "Bilingue" são três minutos desconfortáveis, pop irrequieto e maligno, cheio de repetição lírica, vocais imperceptíveis incapazes de compreender as verdadeiras intenções de Manel: se é incomodar, assustar ou alertar...
Antes de "Mareh" o sónico "Faixa Etária", uma guitarra dissonante e uma bateria com a marca de Sambado. Toda essa eletricidade, cadência, ecletismo e trip-hop espacial do refrão delay-drenched consolidam a imagem de marca da Label: comunhão, amizade, drum-machines e sintetizade...
"Mono" traz mais deprimência sonora e outra letra honesta sobre o amor e a saudade para depois terminar com a faixa que dá nome ao disco "Histórias por contar".
Manel Lourenço expõe as suas faixas com maior sinceridade, entrega e carência possível, captando toda a sensibilidade, subtileza e suavidade de uma cantautora feminina compor e apresentar os seus temas.
Histórias por Contar, Xita Records/Maternidade 2016
Vida Salgada são temas desiguais, lições de moral ou simples histórias de vida que retratam auto-estima, sentidos não obrigatórios de vida... Filipe é ele também um artista desigual que escreve sobre tudo o que vê e sente acontecer à sua volta: do cintilante "Vida Salgada" sobre o amor insonso e a necessidade de algo novo! Os acordes tímidos de "Tou Confuso"... Aí Filipe destaca a maneira como as pessoas caem muito facilmente numa pré-definição de acontecimentos e tendências ao invés de marcarem a diferença sem medo de serem elas próprias. Esta escrita honesta e consciente dão caráter e integridade a Sambado, um compositor humilde de canções identificáveis por outros jovens díspares...
Do contagiante neo-psich "Roda a Garrafa" até ao triste e refletivo "Aprender e Ensinar", a sinestesia vocal etérea de "Nó do Peito" para fechar com a chave de ouro "Já Não Vou Sair Daqui", temas de uma simplicidade bruta mas que pegando nesse mistério e subtileza lírica tornam-no num dos artistas mais complexos e difíceis de decifrar da cena, não será este disco a fazê-lo.
Vida Salgada, Spring Toast Records/Maternidade 2016
terça-feira, 5 de julho de 2016
Álbum da Semana: The Blue Drones: Live at the 39
The Blue Drones é o quinteto do Cacém que há mais de três anos vem presenteando o público com obras de rock apimentadas aqui e ali com toques psicadélicos. Em Março de 2013 disponibilizam a sua primeira faixa no bandcamp, "Remainings of Time", que três anos depois incorpora o primeiro EP da banda.
É precisamente com esta faixa que somos transportados para este universo bluesy. Um início de EP simples e cru no qual vale a pena salientar o interlúdio aos 2 minutos, ou se quisermos, mais uma espécie de segundo andamento, em que se consegue ter uma percepção total do papel de todos os elementos da banda, algo que não existia na primeira gravação da faixa lançada em 2013, mas serve sobretudo para deliciar fãs mais devotos, ou amantes da música em geral. Ao invés do simples solo distorcido. o solo é mais clean, a vibe é muito mais groovy, muito por culpa do baixo, algo muito mais pensado e interessante que denota bem a evolução da banda.
O EP prossegue com "Echo Surfer", onde temos sobretudo uma faixa de agradável audição, que serve para o efeito pretendido, mas em que fica a ideia de que o echo podia ter sido talvez explorado de outra forma. A faixa está solarenga, mas o contraste com a voz de inverno de Francisco Pacheco pode tornar-se estranho em primeiras impressões.
"Flying Around" é outra das faixas "novas" neste EP, onde novamente brilha o baixo, que pela segurança que transmite torna impossível que se tire o ouvido desta linha, o que se torna um aspecto característico do EP, talvez pela competência de Ricardo Lapo, talvez pela importância dada ao instrumento pela banda. O que é certo é que estamos a afastar-nos cada vez mais do rock/blues puro e cru e a aventura-mo-nos por trilhos desconhecidos, onde acabamos por ser uma árvore "waving my leaves in the air". Em "Tree &Signals" acabamos por ser atirados novamente, sem nos apercebermos, para aquele sítio onde reinam o riff e a melancolia das letras e onde temos também um dos melhores papeis vocais de Live at the 39. A voz grave desliza suavemente entre os acordes, aqui e ali interrompida por um solo colocado de forma oportuna, com uma letra sempre a roçar o desgosto amoroso, tal como em todo o álbum.
O primeiro EP de The Blue Drones surge muito como um upgrade de coisas já gravadas anteriormente e nesse sentido é notório o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela banda, não deixando de se reparar na diversidade de géneros que se fundem para que o álbum ganhe vida, impedindo que o trabalho se torne repetitivo e entediante.
É precisamente com esta faixa que somos transportados para este universo bluesy. Um início de EP simples e cru no qual vale a pena salientar o interlúdio aos 2 minutos, ou se quisermos, mais uma espécie de segundo andamento, em que se consegue ter uma percepção total do papel de todos os elementos da banda, algo que não existia na primeira gravação da faixa lançada em 2013, mas serve sobretudo para deliciar fãs mais devotos, ou amantes da música em geral. Ao invés do simples solo distorcido. o solo é mais clean, a vibe é muito mais groovy, muito por culpa do baixo, algo muito mais pensado e interessante que denota bem a evolução da banda.
O EP prossegue com "Echo Surfer", onde temos sobretudo uma faixa de agradável audição, que serve para o efeito pretendido, mas em que fica a ideia de que o echo podia ter sido talvez explorado de outra forma. A faixa está solarenga, mas o contraste com a voz de inverno de Francisco Pacheco pode tornar-se estranho em primeiras impressões.
"Flying Around" é outra das faixas "novas" neste EP, onde novamente brilha o baixo, que pela segurança que transmite torna impossível que se tire o ouvido desta linha, o que se torna um aspecto característico do EP, talvez pela competência de Ricardo Lapo, talvez pela importância dada ao instrumento pela banda. O que é certo é que estamos a afastar-nos cada vez mais do rock/blues puro e cru e a aventura-mo-nos por trilhos desconhecidos, onde acabamos por ser uma árvore "waving my leaves in the air". Em "Tree &Signals" acabamos por ser atirados novamente, sem nos apercebermos, para aquele sítio onde reinam o riff e a melancolia das letras e onde temos também um dos melhores papeis vocais de Live at the 39. A voz grave desliza suavemente entre os acordes, aqui e ali interrompida por um solo colocado de forma oportuna, com uma letra sempre a roçar o desgosto amoroso, tal como em todo o álbum.
O primeiro EP de The Blue Drones surge muito como um upgrade de coisas já gravadas anteriormente e nesse sentido é notório o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela banda, não deixando de se reparar na diversidade de géneros que se fundem para que o álbum ganhe vida, impedindo que o trabalho se torne repetitivo e entediante.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Álbum da semana: Mighty Sands- Big Pink (vol. 1 e 2)
Em 2014 vimos Los Black Jews participarem no cobiçado Vodafone Band Scout, festival que projeta futuras promessas da música alternativa portuguesa. O solarento, western-smooth "DK" revelava todo o potencial da banda que só dois anos mais tarde estaria preparada para um primeiro longa duração e o fazem de forma mais memorável possível: Um conjunto de cassetes intitulado "Big Pink", que vem mostrar uns re-batizados Mighty Sands como donos do rouge (neste caso rose) ,burlesco pop garageiro mais sofisticado que a cena portuguesa alguma vez sonharia ouvir.
Embora semelhantes aos seus congéneres americanos Allah Las ou Love, Mighty não soam tão preocupados com os arranjos de guitarra ou com a (eventual) visceralidade de certas faixas, como pode se ouvir nos últimos 30 segundos do Lucky Luck anthem "Love Son" pura distorção de guitarras e fuzz nos riffs dos refrões, no entanto é nas melodias e em certos momentos de pura harmonia sonora que conseguimos os momentos mais memoráveis de todo o disco.
Do instrumental alegre e birdy-sinth de Martinee "Cacti" até ao "cowboyento" guiro-sampled* e harmonioso "100 Villains" até ao sexy, pitoresco e exótico "I'm So Thankful", que exibe uma química óbvia entre Luckee e Maree, até ao psich repleto de delay vocal "Ride The Curse" que acaba no super épico de 13 minutos "Mozambique", último registo que vem consolidar a composição consciente, os vocais angelicais de Teresa no refrão e a já mencionada simetria que cada instrumento propõe em cada faixa.
Big Pink torna-se melhor a cada audição, há subtileza em cada instrumento que vai ficando mais nítida a cada replay, a perceção da letra vai-se tornando mais clara e porque não, o disco vai ficando tão rosa que um dia será apenas chamado de "Disco cor de rosa", e aí saberemos que chegará onde sempre esteve destinado.
*Pareceu-me ouvir um Guiro, posso estar enganado...
Ouçam Big Pink vol.1 e Big Pink vol.2
Embora semelhantes aos seus congéneres americanos Allah Las ou Love, Mighty não soam tão preocupados com os arranjos de guitarra ou com a (eventual) visceralidade de certas faixas, como pode se ouvir nos últimos 30 segundos do Lucky Luck anthem "Love Son" pura distorção de guitarras e fuzz nos riffs dos refrões, no entanto é nas melodias e em certos momentos de pura harmonia sonora que conseguimos os momentos mais memoráveis de todo o disco.Do instrumental alegre e birdy-sinth de Martinee "Cacti" até ao "cowboyento" guiro-sampled* e harmonioso "100 Villains" até ao sexy, pitoresco e exótico "I'm So Thankful", que exibe uma química óbvia entre Luckee e Maree, até ao psich repleto de delay vocal "Ride The Curse" que acaba no super épico de 13 minutos "Mozambique", último registo que vem consolidar a composição consciente, os vocais angelicais de Teresa no refrão e a já mencionada simetria que cada instrumento propõe em cada faixa.
Big Pink torna-se melhor a cada audição, há subtileza em cada instrumento que vai ficando mais nítida a cada replay, a perceção da letra vai-se tornando mais clara e porque não, o disco vai ficando tão rosa que um dia será apenas chamado de "Disco cor de rosa", e aí saberemos que chegará onde sempre esteve destinado.
*Pareceu-me ouvir um Guiro, posso estar enganado...
Ouçam Big Pink vol.1 e Big Pink vol.2
domingo, 19 de junho de 2016
Álbum da semana: Sun Blossoms (homónimo)
Antes de mais, não é fácil escrever sobre discos desta subtileza e sensibilidade. Também não é comum ver, em tão tenra idade, alguém com o dom de Alexandre Fernandes. Parece datado mas reparem, Kevin já tinha os Impala com 14/15 anos antes de se tornarem no protótipo da nova cultura independente. Com 15 anos Alexandre já compunha, gravava e mexia com pedais e layers de reverb. O background é sem duvida favorável.
Em Setembro de 2015, com 17/18 anos de idade (já), Sun Blossoms (disco de estreia homónimo) saí pelas mãos da Revolve , label habituada a ter outros nomes psicó-trópicos no catálogo (Pontiak ou Toulouse) e que estreia! Sem soar 100% similar aos seus contemporâneos, Alex oferece-nos faixas lentas e aéreas, melodias carregadas de vocais nublados, tímidos... Afinal ele era um adolescente quando gravou todas estas 10 faixas sozinho, no seu quarto.
A cada faixa, Alex vai aperfeiçoando as mecânicas básicas de uma canção pop orelhuda e peganhenta, mas sem soar tão convencional. "Flower Eyes" soa a imobiliário, Alex usa e abusa da repetição como forma de hipnose nos seus acordes gentis e por vezes fuzzentos, como em "Happy", que parece mais ser uma contradição: Ele não fala de felicidade ou de como é feliz, ele explica como o poderia ter sido. Ainda na ironia, ouve-se um fuzz que se contradiz com os acordes verdes e minimalistas, tudo isto sem parecer hostil ou volátil mas sente-se a melancolia, a frustração nos vocais. Antes em "Friend" Alex toca de forma resoluta cordas jangly e na ponte riffs Mondanile-ear-buzz, após o interlúdio que dá nome à natureza de todas estas faixas, "Dream" que mais poderia ser "Dreamy". Depois dessas, o disco afoga-se em mais slackness e depressão mas nunca tensão, em "Like I Do" ou "Grow", o sunshine pop de "Seeds" envolto numa nebulosa de ruído inaudível que capta Melted Toys ou melted noise, o feedback-delay-drenched "Tonight" e o instrumental folk de "Flow" como chave de ouro.
A beleza reside na inocência dos vocais etéreos, a ingenuidade das guitarras de três acordes que sem o serem de todo, soam a algo complexo e estudado e na facilidade que Alex teve em explorar certos arranjos inconvencionais. Haverá dois, três, até quatro discos de Sun Blossoms, nada soará tão orgânico e profundo que esta doce estreia carregada de milésimas possibilidades.
Ouçam Sun Blossoms
Em Setembro de 2015, com 17/18 anos de idade (já), Sun Blossoms (disco de estreia homónimo) saí pelas mãos da Revolve , label habituada a ter outros nomes psicó-trópicos no catálogo (Pontiak ou Toulouse) e que estreia! Sem soar 100% similar aos seus contemporâneos, Alex oferece-nos faixas lentas e aéreas, melodias carregadas de vocais nublados, tímidos... Afinal ele era um adolescente quando gravou todas estas 10 faixas sozinho, no seu quarto.
A cada faixa, Alex vai aperfeiçoando as mecânicas básicas de uma canção pop orelhuda e peganhenta, mas sem soar tão convencional. "Flower Eyes" soa a imobiliário, Alex usa e abusa da repetição como forma de hipnose nos seus acordes gentis e por vezes fuzzentos, como em "Happy", que parece mais ser uma contradição: Ele não fala de felicidade ou de como é feliz, ele explica como o poderia ter sido. Ainda na ironia, ouve-se um fuzz que se contradiz com os acordes verdes e minimalistas, tudo isto sem parecer hostil ou volátil mas sente-se a melancolia, a frustração nos vocais. Antes em "Friend" Alex toca de forma resoluta cordas jangly e na ponte riffs Mondanile-ear-buzz, após o interlúdio que dá nome à natureza de todas estas faixas, "Dream" que mais poderia ser "Dreamy". Depois dessas, o disco afoga-se em mais slackness e depressão mas nunca tensão, em "Like I Do" ou "Grow", o sunshine pop de "Seeds" envolto numa nebulosa de ruído inaudível que capta Melted Toys ou melted noise, o feedback-delay-drenched "Tonight" e o instrumental folk de "Flow" como chave de ouro.
A beleza reside na inocência dos vocais etéreos, a ingenuidade das guitarras de três acordes que sem o serem de todo, soam a algo complexo e estudado e na facilidade que Alex teve em explorar certos arranjos inconvencionais. Haverá dois, três, até quatro discos de Sun Blossoms, nada soará tão orgânico e profundo que esta doce estreia carregada de milésimas possibilidades.
Ouçam Sun Blossoms
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Álbum da semana: The Glockenwise- Heat
The Glockenwise, para mim é uma banda especial e isso é inegável. Lembram-se há 5 anos atrás? Quando a Vodafone FM começou e junto dela viriam os primeiros novos avanços independentes? Eu lembro-me de ouvir "Beijing" (Sequin) ou "Time to Go" e "Bardamu Girls", os primeiros contatos que tive com a nova música punk portuguesa vieram dessas duas...
Heat é o terceiro avanço da banda de Barcelos The Glockenwise, aqui trazem um twist interessante daquilo que é o Rock & Roll ou Glock & Roll, como lhe quiserem chamar...
Aqui é tudo gente grande já não estamos a tocar para universitários bêbados, estamos a tocar no Restelo já, há medida que vemos essas ondas tornarem-se em algo inimaginável e impossível de prever em 2011: uma banda livre e solta, solta maturidade e cordas soltas, cordas de guitarra continuam a soltar-se em acordes mínimos mas já não é tão óbvio, talvez pela composição séria e ponderada. Cordas vocais soltam-se com firmeza e algum sentido de grandeza. "Time (Is a Drag)" arrasta-se num ritmo madchester em barcelos, o saxofone faz lembrar Beck em "Lord Only Knows" e os vocais mais soam a "preto" do Blues que "branco" do Punk! Um rock muito sofisticado mas garageiro nos momentos mais marcantes da faixa. Em "Tide" a banda continua a beber a sua fórmula vencedora de Pop Punk mas o disco vai-se tornando mais escuro, consciente, humano e profundo em "Up to You" ou "Try Hard", onde se nota mais melancolia ou inquietação... Antes de tudo isso "Heat" a música que dá nome ao disco vai servindo de protótipo desta nova demanda sonora. Em suma, Os Glockenwise, sem (ainda) se afastarem totalmente da sua icónica sonoridade que os pôs no radar, vão experimentando novas formas de fazer Punk sem o fazerem de forma 100% convencional e isso dá acidez ao som e alguma maturidade à banda, tudo isso adereços que poderão ser mais tarde referenciados num quarto disco de originais. Enquanto tudo isto acontece a banda dá um salto importante na carreira: de artistas para músicos, deixam de ser uma promessa e passam a cumpri-la.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Álbum da semana: Treehouses 2290- The Difference Between a House and a Home
À partida parecem ser mais outra banda indie de Lisboa com etiquetas inadequadas no Bandcamp, no entanto, fiéis à sua capacidade de auto-rotulagem, Treehouses 2290 são uma das bandas mais peculiares do cenário. Sem recorrer ao uso abusivo da distorção de cordas, a banda acha um equilíbrio perfeito entre o ruído e a paz sonora, numa conjugação de sons que dão maturidade e independência à banda, tudo coisas audíveis no quarto trabalho "The Difference Between a House and a Home".
Sonoridade nebulosa e atmosférica (The Wall); Vocais etéreos capazes de encontrar ruído descomunal, por certo, dois dos três ideais do Shoegaze pré-moderno (Budapest); Padrões repetitivos, quase hipnotizantes de um sintetizador falante (deLorean). Nada disto parece datado ou repescado, talvez provenha daí a beleza das faixas, embelezadas numa manta progressiva que não deixa nenhuma delas acabar (ou começar)... A produção parece legitima, a masterização também.
"A casa" é aquilo que os Treehouses foram, um grupo obcecado pelo ruído grátis, baterias rápidas e vocais "guinchados"... "O lar" é onde a banda descobre como converter todas essas influências em pura arte. Seja até 2290 ou num futuro ainda mais longínquo: No presente, este é o som do futuro. É para lá que a banda caminha, sozinha.
Ouçam as diferenças aqui
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Álbum da semana: Car Seat Headrest- Teens Of Denial
É muito fácil banalizar quase todas as bandas Indie do momento. Difícil é, com toda a honestidade e rigor, destacar uma cujo a letra seja tão (ou mais) divertida de aprofundar como é toda a mecânica e engenharia de som, por vezes muito levadas a sério por bestas da cena (My Bloody Valentine, Pavement)...
Divertido tornou-se, também, analisar a fundo e dar crédito merecido a um compositor de 22 anos, cujo seus contributos na cena Punk/Indie têm sido banalizadas, até agora... Até ele mesmo pareceu banalizá-las ou não levá-las tão a sério depois do low cost "Teens in Style". Tudo audições aceitáveis não me levem a mal, estamos a falar da Matador Records (Sonic Youth)... Porquê divertido?
Em "Teens of Denial" vemos Will mergulhar de cabeça numa piscina do tempo onde regressa a todos os seus desgostos e poços de adolescência, e agora olha para eles como se tratasse de uma brincadeira, retratando-os de forma mais simples, no entanto, marcante possível.
Música minimalista no seu máximo esplendor: Os vocais de Toledo fazem regressá-lo no tempo sim, numa constante troca de cordas vocais entre Casablancas e Flowers, como se ambos estivessem a ditar últimos pensamentos. Aqui Toledo revela-se um compositor instável e com traumas pós-adolescência/vida jovem adulta, que podem ser ou tão facilmente identificáveis como em "Just Wanted/Just What I Needed" ou mal encaradas como em "Drunk Drivers/Killer Whales", mas tudo isso deixa de importar a partir do momento em que Toledo mostra-nos resiliência e uma eterna melancolia na ultrapassagem desses episódios que ele mesmo insiste em retornar. Importante relembrar que este foi gravado num estúdio e não num gravador de quatro pistas, produzido por Steve Fisk... Enfim, tudo aqui soa a legítimo.
Em suma, "Teens of Denial" é um disco conceptual raso e de penetração fácil, mas não precisava de ser profundo: em poucas palavras Will resume a sua adolescência sem parecer minimamente arrependido, uma verdadeira transição do hobbie para a profissão, do desarrumado para o organizado... Uma caminhada verdadeiramente triunfante.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Álbum da Semana: Isn't Anything - My Bloody Valentine
Hoje o álbum da semana vem na sequência do aniversário de Kevin Shields, que completou dia 21 de Maio 53 anos. Lembro-me da primeira vez que ouvi falar de shoegaze, estava na biblioteca municipal e aparece o Luis (Teixeira) e fala-me de My Bloody Valentine, de The Jesus and Mary Chain e No Joy, de todo o mundo a rondar o noise e os movimentos underground, do olhar para os sapatos... Pensei "quem é que queria ir ver uma banda que olhasse para os pés todo o concerto"... Cheguei a casa e ouvi Loveless todo de uma vez. Anos depois tomei a cena shoegaze um pouco mais a fundo e peguei na discografia de My Bloody Valentine. Isn't Anything foi o disco que mais me ficou na cabeça de todos eles.
O disco foi lançado em Novembro de '88, o primeiro álbum de longa duração dos irlandeses, para muitos o disco que marca o início do shoegaze. Começa com um atípico Soft As Snow (But Warm Inside), mas que já tinha a guitarra distorcida presente em todo o disco, com as vocais mais perceptíveis de todo o álbum, cantadas por Kevin Shields, onde se fala explicitamente da prática do amor, com especial destaque para o baixo de Debbie Googe. Continuamos com Lose My Breath, a minha favorita do álbum, que é no fundo uma das faixas mais melancólicas e introspetivas de My Bloody Valentine. Uma guitarra acústica ecoada, com poucos e simples acordes, mas que funciona na perfeição ao criar a atmosfera densa na qual as vocais de Bilinda Bitcher sobressaem. O refrão não passa de um simples "uuuhhh uhhh", como a banda nos habituou ao longo dos tempos, mas os versos estão carregados de um sentimento muito mais negro que o normal em MBV. Depois disso Cupid Come e (When You Wake) You're Still In A Dream, ambas com vocais de Kevin Shields e riffs ruidosos, mas perceptíveis e alegres, algo catchy, o segundo mais devastador que o primeiro. No More Sorry é aquela faixa para se ouvir deitado na cama o dia todo enquanto se chora por alguma razão. Um ambiente ruidoso completado por uma melodia extremamente pessoal para Bilinda, acerca do pai do seu filho Toby, que a maltratava - "Loved me Black and Blue".
Segue-se o mesmo ambiente dreamy com All I Need, vocais quase num jeito spoken word, agora sim, já impercetíveis, duas notas que se repetem ao longo da faixa e apenas duas, alternando como ondas, são tantos os pedais que e impossível perceber quais são, apenas se sabe que o som é agradável, é agridoce, distorcido mas suave, uma antecipação do que há em quase todo o Loveless. Feed Me With Your Kiss vem acabar com os sonhos, o disco acorda, uma bateria demolidora mas as vocais continuam longas. Potente esta faixa, assim como Sueisfine, que será exatamente isso, uma miúda chamada Sue que está fine, ou não tão fine, já que a música se relaciona com suicídio. A energia quebra um pouco em Several Girls Galore, mas retoma o seu pico em You Never Should, o tremolo é evidente, tremolo esse que se popularizou em Loveless. Nothing Much To Lose mantém o registo das faixas anteriores e I Can See It (But I Can't Feel It) vem finalizar abruptamente o álbum. Mais uma vez temos uma canção deprimente cantada de forma alegre em algo como don't worry, está tudo bem e a vida continua, tocada com guitarra tremolo e guitarra acústica para soar bem bonitinho, cantada com frases longas e dreamy, o que resume o álbum numa só frase no fundo.
Ouçam aqui o álbum completo.
O disco foi lançado em Novembro de '88, o primeiro álbum de longa duração dos irlandeses, para muitos o disco que marca o início do shoegaze. Começa com um atípico Soft As Snow (But Warm Inside), mas que já tinha a guitarra distorcida presente em todo o disco, com as vocais mais perceptíveis de todo o álbum, cantadas por Kevin Shields, onde se fala explicitamente da prática do amor, com especial destaque para o baixo de Debbie Googe. Continuamos com Lose My Breath, a minha favorita do álbum, que é no fundo uma das faixas mais melancólicas e introspetivas de My Bloody Valentine. Uma guitarra acústica ecoada, com poucos e simples acordes, mas que funciona na perfeição ao criar a atmosfera densa na qual as vocais de Bilinda Bitcher sobressaem. O refrão não passa de um simples "uuuhhh uhhh", como a banda nos habituou ao longo dos tempos, mas os versos estão carregados de um sentimento muito mais negro que o normal em MBV. Depois disso Cupid Come e (When You Wake) You're Still In A Dream, ambas com vocais de Kevin Shields e riffs ruidosos, mas perceptíveis e alegres, algo catchy, o segundo mais devastador que o primeiro. No More Sorry é aquela faixa para se ouvir deitado na cama o dia todo enquanto se chora por alguma razão. Um ambiente ruidoso completado por uma melodia extremamente pessoal para Bilinda, acerca do pai do seu filho Toby, que a maltratava - "Loved me Black and Blue".
"Ever since Isn’t Anything I had panic attacks. Toby’s dad treated me
really bad, which I’ve told about in No More Sorry. All of a sudden he
wanted joint custody and I was frightened. The hypnotic therapy made
things from my childhood resurface which explained why I had been living
with such a man. I was a nervous wreck and I realised that a lot that
happened when I was a kid shouldn’t have happened. A lot of it came out
in my lyrics. A lot of discomfort."
Segue-se o mesmo ambiente dreamy com All I Need, vocais quase num jeito spoken word, agora sim, já impercetíveis, duas notas que se repetem ao longo da faixa e apenas duas, alternando como ondas, são tantos os pedais que e impossível perceber quais são, apenas se sabe que o som é agradável, é agridoce, distorcido mas suave, uma antecipação do que há em quase todo o Loveless. Feed Me With Your Kiss vem acabar com os sonhos, o disco acorda, uma bateria demolidora mas as vocais continuam longas. Potente esta faixa, assim como Sueisfine, que será exatamente isso, uma miúda chamada Sue que está fine, ou não tão fine, já que a música se relaciona com suicídio. A energia quebra um pouco em Several Girls Galore, mas retoma o seu pico em You Never Should, o tremolo é evidente, tremolo esse que se popularizou em Loveless. Nothing Much To Lose mantém o registo das faixas anteriores e I Can See It (But I Can't Feel It) vem finalizar abruptamente o álbum. Mais uma vez temos uma canção deprimente cantada de forma alegre em algo como don't worry, está tudo bem e a vida continua, tocada com guitarra tremolo e guitarra acústica para soar bem bonitinho, cantada com frases longas e dreamy, o que resume o álbum numa só frase no fundo.
Ouçam aqui o álbum completo.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Álbum da semana: Clementine- Bobadela Demo Sessions
E faria tudo de novo: Tirar o pijama depois de um dia cansativo, apanhar o barco para o Sodré, beber vários litros seguidos de cerveja, fumar desmedidamente (cigarros), ir a um hostel cheio de americanas giras, só para o meu subconsciente gritar a mim mesmo: "Faltam 5 minutos para as Clementine começarem", a única razão que me fez sair de casa in the first place.
Mal cheguei ao clube falei com várias pessoas e fiz-lhes a mesma pergunta: "Vieram ver as Clementine?" Elas mal encaradas respondiam, quase sempre, num tom irónico: "Não, vim ver os Beatles." Lamento fazer uma pergunta tão óbvia, mas sem diminuir Igbo ou os demasiado sobrevalorizados Soviet Soviet, que na minha mais sincera opinião deram um concerto medíocre, eu vim apenas para ver estas míudas tocar.
Vamos falar do som, altamente garageiro e sujo, no sentido mais clean possível: A natureza pobre da gravação fazem lembrar In Utero sem tanta intenção, a mal criadez por trás dos vocais irados da Shelley fazem lembrar as Dog Party, mas menos mimadinhas, permitindo uma perda total do que é aceitável ou não aos olhos da sociedade, e a isso meus caros, eu chamo de música Punk.
"Mutations" é visceral e feroz, a bateria da Helena leva-nos a "Banquet" dos Bloc Party, mas a guitarra distorciva, mal alinhada no inicio, enfim, careless da Shelley fazem-na encarnar numa Courtney tuga da nova era, mas sem o Love, só o ódio, a raiva contida e a calma forçada ou seja, os ideais de qualquer Riot Girl assumida, como estas mesmo dizem ser.
Resumindo: Pagar 10 euros em nota, trazer uma litrosa sem o porteiro do clube ver, falar com o frontman dos Dirty Coal Train (onde a Helena tocava), pedir "Mutations", ir falar com a Shelley no final do gig, pedir-lhe a set e falar-lhe deste blog onde escrevo sobre elas enquanto as oiço... Faria tudo de novo e digo mais, ainda não fiz outra coisa senão ouvir estas malhas.
Ouçam Bobadela Demo Sessions de Clementine.
Mal cheguei ao clube falei com várias pessoas e fiz-lhes a mesma pergunta: "Vieram ver as Clementine?" Elas mal encaradas respondiam, quase sempre, num tom irónico: "Não, vim ver os Beatles." Lamento fazer uma pergunta tão óbvia, mas sem diminuir Igbo ou os demasiado sobrevalorizados Soviet Soviet, que na minha mais sincera opinião deram um concerto medíocre, eu vim apenas para ver estas míudas tocar.
Vamos falar do som, altamente garageiro e sujo, no sentido mais clean possível: A natureza pobre da gravação fazem lembrar In Utero sem tanta intenção, a mal criadez por trás dos vocais irados da Shelley fazem lembrar as Dog Party, mas menos mimadinhas, permitindo uma perda total do que é aceitável ou não aos olhos da sociedade, e a isso meus caros, eu chamo de música Punk.
"Mutations" é visceral e feroz, a bateria da Helena leva-nos a "Banquet" dos Bloc Party, mas a guitarra distorciva, mal alinhada no inicio, enfim, careless da Shelley fazem-na encarnar numa Courtney tuga da nova era, mas sem o Love, só o ódio, a raiva contida e a calma forçada ou seja, os ideais de qualquer Riot Girl assumida, como estas mesmo dizem ser.
Resumindo: Pagar 10 euros em nota, trazer uma litrosa sem o porteiro do clube ver, falar com o frontman dos Dirty Coal Train (onde a Helena tocava), pedir "Mutations", ir falar com a Shelley no final do gig, pedir-lhe a set e falar-lhe deste blog onde escrevo sobre elas enquanto as oiço... Faria tudo de novo e digo mais, ainda não fiz outra coisa senão ouvir estas malhas.
Tracklist: (a vermelho ficam as escolhas MS)
- Hell On Wheels
- One Eye
- Mutations
- Rollercoaster
- Street Walker
Ouçam Bobadela Demo Sessions de Clementine.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Álbum da semana: Salto - Passeio das Virtudes
Após o álbum homónimo de 2012, "Passeio das virtudes" é o segundo disco editado destes quatro jovens da Invicta. É desde 30 de janeiro deste ano que temos à nossa disponibilidade um álbum mais maduro e uma atitude mais segura e determinada, com um acréscimo de dois membros. Os Salto, em doze faixas, criaram um álbum que evoca o mar de verão e o potencial do sol, que afina a saturação das cores das coisas visíveis e invisíveis. Menos elétricos e mais sonhadores, donos de uma efervescência agradavelmente contida, os rapazes dignificam sem pretensiosismos o pop/rock elétrico português e refrescam a saúde de quem precisa de vitamina C e não tem fácil acesso a esta.
"Queimo as Mãos pelo Futuro" é um começo ameno para um álbum com mais do que um clímax distribuído pelo seu alinhamento. É nesta malha que começa a viagem e Guilherme canta, sem rodeios, as memórias da Tour Mar Inteiro, que decorreu no ano passado: "Corremos de olhos fechados (...) de bolsos furados". Os vocais suaves deslizam pelos efeitos aéreos do sintetizador e "Mar Inteiro", a faixa mais rock'n'roll é um mergulho numa sinestesia em que cada nota musical é uma explosão de cor. Destaca-se, em seguida, "Passeio das Virtudes", cuja sonhadora introdução é continuada por uma atmosfera de videojogo clássico (avé sintetizadores). Neste videojogo é sempre verão e é o Guilherme que narra a história do jogador com questões existencialistas, num passeio virtuoso até ao infinito. "Nunca faço nada de que não me possa orgulhar/ um dia já no caixão os bichos não me hão-de julgar". Pelos vistos, o herói deste universo sai satisfeito consigo mesmo.
"Lagostas" acaba por ser a melhor onda que se apanha neste disco. É um empurrão soberbo para a pista de dança e para animar qualquer altura do dia. E tudo isso deve-se ao funk, aos rasgos de guitarra, às nostalgia dos 60's e do glam rock. Não é notável a ouvido nu, porém, temos também algumas influências dos Kraftwerk e Daft Punk. Como uma máquina, dançaremos a este single que promete ser transcendente a este verão.
"César" começa por dar ares de chill out/lounge music e é gloriosa, um curto instrumental que brilha como um César Augusto dos tempos modernos. O tema perfeito para ser selecionado como despertador, se quiseres acordar de maneira heróica. "O Sonho da Cidade Branca" é um interlúdio que funciona como um olhar desprevenido para o contexto de criação do álbum, até porque alude a um clima de trabalho e ensaios. "Em Paz Com Falhas" tem umas nuances de Mac DeMarco e é mais soturna, mesmo a nível de registo vocal. "Cidade Branca" passa despercebida e é quase um aquecimento para a beleza caracterizante da confissão que é "Uma de Cada Vez": "Acordo sem me deitar (...) Tudo tem sua vez". Talvez a faixa mais intrigante do álbum, que é aperfeiçoada com umas harmonias vocais interessantes.
"Selva" é ofuscante e libertadora, com a esquizofrenia bem presente, e de certo modo libertadora. Segue "Selva Néon", bem ao jeito do DJ Kavinsky, num registo quase retrowave, perfeito instrumental para uma viagem de carro noturna. Este tema é uma injeção de adrenalina e tem o seu brilho cinematográfico, pois alude às noites das grandes metrópoles. "Estrada Gasta" é a despedida deste passeio do qual saímos com os ouvidos vacinados e a vista toldada pela luz do sol. Fica no ar a ideia de inquietude e a certeza de que os passeios de certos caminhos têm de ser feitos dentro da nossa mente.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Álbum da semana: Odyssey Os Argonautas
João Alves nem seria o membro mais vistoso de Hércules, pequena banda de Lisboa sem temas gravados mas com um breve "cameo" referente ao Vodafone Band Scout deste ano (os incríveis Galgo como runner-ups). Banda essa onde João habitua-se a tocar teclado. A vida tem destas coisas não é? Quem diria que o membro menos vistoso seria também o mais entusiasmante de todos, o mais misterioso...
Odyssey Os Argonautas é o nome do projeto onde João Alves insiste em gravar cada instrumento sozinho, remasterizar, enfim, produzir um trabalho inteiro, para afirmar-se como multi-instrumentista talentoso e incrivelmente sábio, é que sem fugir da mitologia grega, Odyssey foge totalmente ao som de Hércules como se ambos tivessem num campo de batalha, sendo que Odyssey ganha pontos ao pai (Hércules) por ter um som definido, algo que a banda-mãe ainda batalha para conseguir (e a saída do baterista em nada ajuda).
Com um som ambiente jibóia-lead, carregado de mantras mitológicos e ancestrais, um "Beat Dance" incrivelmente solarento Sahara-struggle, João segue a sua embarcação de Argo rumo a esse Cabinet of curiosities e aparentemente incógnitas, que nos deixam com sede de mais música temática desta beleza e simplicidade.
Ouçam Odisseia os argonautas aqui
Odyssey Os Argonautas é o nome do projeto onde João Alves insiste em gravar cada instrumento sozinho, remasterizar, enfim, produzir um trabalho inteiro, para afirmar-se como multi-instrumentista talentoso e incrivelmente sábio, é que sem fugir da mitologia grega, Odyssey foge totalmente ao som de Hércules como se ambos tivessem num campo de batalha, sendo que Odyssey ganha pontos ao pai (Hércules) por ter um som definido, algo que a banda-mãe ainda batalha para conseguir (e a saída do baterista em nada ajuda).
Com um som ambiente jibóia-lead, carregado de mantras mitológicos e ancestrais, um "Beat Dance" incrivelmente solarento Sahara-struggle, João segue a sua embarcação de Argo rumo a esse Cabinet of curiosities e aparentemente incógnitas, que nos deixam com sede de mais música temática desta beleza e simplicidade.
Ouçam Odisseia os argonautas aqui
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Álbum da semana: Galgo- EP5
Talvez seja uma coincidência engraçada mas acabo sempre por ficar bué panco das bandas que vencem o Vodafone Band Scout, basta só dar uma olhada a alguns vencedores do passado que hoje não saem da minha playlist, até já tenho umas quantas cópias físicas, de Cave Story ou Pista...
Galgo são um four piece (revólver?) muito incomum, estamos a falar de Guitarra, bateria, baixo e teclado. Aqui, em certas faixas a bateria instável e up tempo e os teclados omnipresentes ditam um som muito difícil de catalogar, e nem sei se quero. Há experimentações e um espírito muito free jam, pode-se ouvir em "Monte Real", para mim a melhor faixa deste trabalho de estreia. Falando de Monte Real, a música começa com uma linha de baixo que segue a guitarra irrepreensível que dá molde a música, criando um clima eterno de ansiedade mas depois mais tarde estabilizando o som em algo forever espontâneo e bastante aleatório, mas que faz muito sentido, como os riffs-esque-foals ou os vocais reverb-full e teclados que afogam a música num pântano de ruído audível.
De resto o EP começa muitíssimo bem com o single "Trauma de Lagartixa", aí capta-se a estrutura de uma música de Galgo, uma só linha que pode ser usada como refrão ou simples grito de guerra,frase dita e gasta vezes sem conta dando forma a uma faixa muito experimental, tudo isto faixas que põem a banda num circulo Math/Psichadelic mas eu gosto de pensar que a banda é muito mais livre que isso. O som é profundo e eclético por vezes, em Torre de Babel encontramos um ritmo de baixo super groovy que não deixa ninguém estar parado, os riffs iniciais fazem lembrar Grandfeathered do início ao fim, só o facto de estarmos a comparar a banda a pinkshinyuultrablast diz muito, e a audição apesar de curta (4 faixas) torna-se muito mais perceptível a cada audição, um lp ditará o derradeiro veredicto mas EP5 é um excelente cartão de visita.
Ouçam EP5 de Galgo aqui
Galgo são um four piece (revólver?) muito incomum, estamos a falar de Guitarra, bateria, baixo e teclado. Aqui, em certas faixas a bateria instável e up tempo e os teclados omnipresentes ditam um som muito difícil de catalogar, e nem sei se quero. Há experimentações e um espírito muito free jam, pode-se ouvir em "Monte Real", para mim a melhor faixa deste trabalho de estreia. Falando de Monte Real, a música começa com uma linha de baixo que segue a guitarra irrepreensível que dá molde a música, criando um clima eterno de ansiedade mas depois mais tarde estabilizando o som em algo forever espontâneo e bastante aleatório, mas que faz muito sentido, como os riffs-esque-foals ou os vocais reverb-full e teclados que afogam a música num pântano de ruído audível.
De resto o EP começa muitíssimo bem com o single "Trauma de Lagartixa", aí capta-se a estrutura de uma música de Galgo, uma só linha que pode ser usada como refrão ou simples grito de guerra,frase dita e gasta vezes sem conta dando forma a uma faixa muito experimental, tudo isto faixas que põem a banda num circulo Math/Psichadelic mas eu gosto de pensar que a banda é muito mais livre que isso. O som é profundo e eclético por vezes, em Torre de Babel encontramos um ritmo de baixo super groovy que não deixa ninguém estar parado, os riffs iniciais fazem lembrar Grandfeathered do início ao fim, só o facto de estarmos a comparar a banda a pinkshinyuultrablast diz muito, e a audição apesar de curta (4 faixas) torna-se muito mais perceptível a cada audição, um lp ditará o derradeiro veredicto mas EP5 é um excelente cartão de visita.
Ouçam EP5 de Galgo aqui
terça-feira, 19 de abril de 2016
Álbum da semana: Capitão Fausto têm os dias contados
Wow nunca pensei viver o suficiente para ouvir uma banda portuguesa a soar a Beach Boys ou qualquer outra banda baroque de anos 60. É que caso a vossa memória tenha ido com o caralho eu lembro-vos que "pesar o sol" era muito mais trippy e progressivo
que qualquer outra coisa de Capitão Fausto. Pesar o Sol é um disco clássico precisamente por essa intencionalidade mascarada de incerteza, isto porque as faixas estâo muito bem estruturadas mas depois modificadas a dada altura para soarem a algo experimental e muito pouco decorado ou combinado, como em "maneiras más" um "épico" de 7 minutos desvairados, após 2 minutos de pop perfeito: uma ponte brilhantemente confecionada, um refrão orelhudo...
" Têm os dias contados" não passa disso mesmo, uma consolidação dessa maneira perfeita e incrivelmente deliberada de fazer música pop, começando pela composição, que parece acompanhar os feitios e gostos da nova geração tuga, de forma dinâmica e de simples descodificação. Melodias super alegres e chamber, criando algo tão nostálgico e moderno ao mesmo tempo, mas, sem nunca darem a conhecer o meio que existe entre esses dois...
que qualquer outra coisa de Capitão Fausto. Pesar o Sol é um disco clássico precisamente por essa intencionalidade mascarada de incerteza, isto porque as faixas estâo muito bem estruturadas mas depois modificadas a dada altura para soarem a algo experimental e muito pouco decorado ou combinado, como em "maneiras más" um "épico" de 7 minutos desvairados, após 2 minutos de pop perfeito: uma ponte brilhantemente confecionada, um refrão orelhudo...
" Têm os dias contados" não passa disso mesmo, uma consolidação dessa maneira perfeita e incrivelmente deliberada de fazer música pop, começando pela composição, que parece acompanhar os feitios e gostos da nova geração tuga, de forma dinâmica e de simples descodificação. Melodias super alegres e chamber, criando algo tão nostálgico e moderno ao mesmo tempo, mas, sem nunca darem a conhecer o meio que existe entre esses dois...
terça-feira, 12 de abril de 2016
Álbum da semana: Prof Jam- Mixtakes
Rap Tuga nunca foi propriamente a minha coisa preferida do mundo, eu lembro-me de ter nojo de ouvir o Regula, ou outros artistas cujo os beats são mais interessantes que a letra em si.
Eu ouvi o "Big Banger Theory" à uns anos atrás depois da Liga Knockout, Prof Jam era muito mais explosivo e hóstil na altura. Hoje Prof já não é o mesmo rapper que era nesses tempos mas a sua hostilidade é tão mascarada de tons filosóficos, ofensa ela tão subtil que mais parece uma lição de vida quando na verdade de forma mais tranquila e consciente possível, Prof Jam manda-te para o caralho. É o que ele diz em "Além"...
Sim ele é o professor dos putos da nova geração, isso transmite-se de forma tão clara. Uma auto-estima de ouro que torna Prof Jam num rapper versátil e incrivelmente carismático, como no single "Queq Queres" ou "Lodi Dodi".
Aqui encontramos algumas das linhas mais brilhantes do ano no panorâma urbano tuga, em "baudelaire", num pico perto do refrão: "só digo-te eu, this is real tipo Telaviv/ Safoda a morte não me importo mano até lá vivo/ até o Hell é um hotel e eu até lá vivo/ e quando eu pego no pincel boy a tela vive", uma nova maneira de escrever versos, aprofundar uma só palavra e convertê-la em mil interpretações possíveis: "(...)E que tudo resto é a paisagem/então começa a ver como é que os teus pais agem", ouve-se em "Além".
Eu ouvi o "Big Banger Theory" à uns anos atrás depois da Liga Knockout, Prof Jam era muito mais explosivo e hóstil na altura. Hoje Prof já não é o mesmo rapper que era nesses tempos mas a sua hostilidade é tão mascarada de tons filosóficos, ofensa ela tão subtil que mais parece uma lição de vida quando na verdade de forma mais tranquila e consciente possível, Prof Jam manda-te para o caralho. É o que ele diz em "Além"...
Sim ele é o professor dos putos da nova geração, isso transmite-se de forma tão clara. Uma auto-estima de ouro que torna Prof Jam num rapper versátil e incrivelmente carismático, como no single "Queq Queres" ou "Lodi Dodi".
Aqui encontramos algumas das linhas mais brilhantes do ano no panorâma urbano tuga, em "baudelaire", num pico perto do refrão: "só digo-te eu, this is real tipo Telaviv/ Safoda a morte não me importo mano até lá vivo/ até o Hell é um hotel e eu até lá vivo/ e quando eu pego no pincel boy a tela vive", uma nova maneira de escrever versos, aprofundar uma só palavra e convertê-la em mil interpretações possíveis: "(...)E que tudo resto é a paisagem/então começa a ver como é que os teus pais agem", ouve-se em "Além".
Com faixas elas alinhadas de forma mais ordeira possível de forma a criar um ambiente ora adverso ora mesmerizante, Prof Jam afirma-se de uma vez por todas como um dos nossos mestres da música underground tuga, tornando (quase) todos os rappers a fazer rap em português obsoletos.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Álbum da semana: Alex Chinaskee- Campo
Poderia escolher o novo disco de Primal Scream ou o muito aguardado novo trabalho de Mogwai, decidi algo menos previsível e optei pelas faixas que tem acompanhado a minha vida nos últimos dias, nos seus momentos mais deprimentes e melancólicos "Campo" faz muito bem o seu trabalho. Estamos a falar de faixas simples, liricas que fogem ao pretensiosismo que é por vezes a música cantada em português, Alex Chinaskee explora o amor, sexo, desejos, de forma mais honesta possivel misturando influências díspares (do psicadélico, garage lo-fi ao bossa nova, tropicália), criando músicas de uma intimidade absoluta, mas livres na interpretação de cada um.
Apesar das faixas não serem totalmente imediatas e por vezes demasiado prolongadas sem qualquer necessidade, Alex poderá ir gravar um longa duração muito mais profundo e macabro que "Campo" mas com a mesma ternura e doçura que me fazem escrever sobre "Campo" in the first place, estaremos muito atentos.
Ouve "Campo" de Alex Chinaskee aqui pá!
Ouve "Campo" de Alex Chinaskee aqui pá!
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