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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"Tiger" é o último rugido de Clementine

Em Setembro de 2015 Clementine lançam "Monga", single que antevia "Bobadela Demo Sessions", único cartão de visita até à data... Com faixas de qualidade inferior e latência superior saltou à vista uma atitude DIY-baixa fidelidade há medida que arranjavam melhores condições para gravar essas faixas...
 Deram concertos, passaram pelo Barreiro Rocks, Caldas Late Night e já haviam assumido fortes relações com Pista ou Cave Story. Agora, sobre mão de Gonçalo Formiga (Cave Story), lançam "Tiger", segundo single para um novo trabalho que poderá estar a ser cozinhado na Hatsize Records (Cave Story, Eternal Champions). Embora ainda nada tenha sido anunciado, Clementine já tem uma setlist de 9 faixas que poderão ser gravadas a qualquer momento, mediante condições para tal...
 O single é então gravado por Gonçalo Formiga e masterizado por Helena Fagundes. Riot Girls tocam dia 9 no festival Rama em Flor e dia 10 no IndieotaFESTAval e deverão apresentar esse single nos próximos concertos.

Ouçam "Tiger".

domingo, 28 de agosto de 2016

A segunda vi(n)da de Monkey Flag

Monkey Flag e as suas gravações domésticas de baixa fidelidade
Muitas dúvidas ficaram na estreia de Monkey Flag em gravações de estúdio. "Demo Tapes" foi praticamente ignorado, muito devido à sensação de impaciência, irreflexão e precipitação no momento de gravar as faixas, que só serviriam para apresentar algo ao público de forma mais imprudente possível. Todo esse esforço insuficiente e urgência sente-se a léguas: músicas mal estruturadas, rótulos desmedidos e uma clara falta de maturidade fazem com que a banda nem seja vista nos pólos da cena lisboeta (Sodré, Bairro Alto)...
Da esq. para a Dir. : David (baixo), Miguel (Bateria) e
Rochinha (Guitarra), os Monkey Flag no Montijo em Janeiro
de 2016
 No entanto passaram alguns meses desde a última vez que vimos os Monkey Flag apresentar essas faixas mínimas na Sociedade Filarmónica no Montijo e a verdade é que vimos outra faceta. Vê-se algum trabalho de casa feito pela banda em tentar fundir as suas influências "boiantes" (Sonic Youth, My Bloody Valentine, Pavement) e tentar afogá-las no som menos banal e previsível possível. Dessa forma o ruído incutido não parece tão obrigatório ou pelo menos tão necessário para que as faixas sejam sequer levadas em consideração. Aqui a distorção é usada como complemento, a nova força determinante vem do baixo e bateria que como toda a gente sabe têm papéis fundamentais nos padrões rítmicos de uma canção. Essa dependência na guitarra já não é tão óbvia e aqui João Rochinha desempenha um papel não tão relevante em relação a Miguel ou David mas eficaz e preciso na construção da sincronia entre os restantes instrumentos.
 A evolução é palpável mas todo esse potencial precisa de ser canalizado e convertido em gravações nítidas e eretas, para que haja segurança no momento crucial de qualquer banda: a apresentação dos temas ao vivo.
 Iremos estar atentos ao trabalho de Monkey, fica a nota positiva de um grande concerto no Bota Baixo este passado sábado no bar de referência. Será que o Montijo está ciente e preparado para aquilo que vai acontecer daqui a sensivelmente uma semana?

Não ouçam Demo Tapes, esperem por algo melhor.

sábado, 27 de agosto de 2016

A virtude Sónica de Sunflower Bean


Certamente, o título do primeiro álbum dos Sunflower Bean chama-se Human Ceremony e não foi escolhido ao acaso. A humanidade sempre inventou rituais para se ligar ao Divino. Esta necessidade de conexão com a força vital do universo, que muitos filósofos glorificaram e outros ignoraram está estampada em todos os acordes do disco de estreia da banda nova-iorquina.
Fuzzed Out, Innerspeacker nostalga "Human Ceremony",
de Sunflower Bean

Alguém que não eu adoraria ouvir este disco em cogumelos. Não que os Sunflower Bean sejam psicadélicos no sentido em que uma banda como Spacemen 3 e Spiritualized o são, naquele sentiudo de repetição extensiva. Se os Smoke City e os Cloud Nothings fizessem um filho, que posteriormente desenvolvesse uma fixação por My Bloody Valentine (quem não?) ele tocaria nesta banda.
Falei em cinco bandas estabelecidas para falar de uma banda emergente, o truque de quem não domina a prosa e/ou o tema. Mas neste caso, é justificável: Ainda não tinha ouvido um álbum de “rock” (sim, eu sei) deste ano que não me desse vontade de dormir. E quando soube que Pitchfork escreveu bem sobre estes tipos, resisti à ideia de os ouvir. Porque a Pitchfork (e a Noisey também) é uma merda. Mas os Sunflower Bean não são uma banda-Pitchfork. Há momentos neste disco (Easier Said p.e.) menos enérgicos e mellow de uma forma que seria chunga se não fossem seguidos de cargas de porrada sónica.

Sunflower Bean tem as influências todas no sítio. Tem a eletricidade. Tem o fuzz gostoso nas guitarras. Tem uma bateria com aquela simplicidade de que o rock cada vez mais ressaca. Mas acima de tudo, tem uma malha que soa a Deus. Mesmo que não acreditem num Deus intervencionista, é impossível ouvir a "I Was Home" sem nos sentir no centro do que os índios Cheyenne chamam "O Grande Círculo do Céu, da Terra e dos Sonhos". Não estou queimado, não tenho um charro ao canto da boca e não estou a dizer “Deixa a música entrar man...” enquanto fecho os olhos. Simplesmente "I Was Home" entrou para mim na “caixinha” dos temas incontornavelmente perfeitos. Bem ao lado da "After Hours" dos Velvet*, da Sexual Healing do Gaye, da "Canção de Embalar" do Zeca e da "Wonderful World" do Sam Cooke.
Se calhar faço estas comparações porque estou louco. Mas não quero saber.
 O Human Ceremony vai passar a fazer parte das minhas homilias. Recomendo-vos que façam o mesmo. Porque mesmo que a banda sonora do momento final seja Capitão Fausto, ascender aos céus só será possível com fé no Rock n Roll. Os Sunflower Bean são um sinal, e dizem-nos “Não deixem de acreditar! Let's make rock & roll not great again!”

Texto de Hélder Menor

terça-feira, 21 de junho de 2016

Crítica: Mamihlapinatapai- Mamihlapinatapai I


Há já algum tempo João Correia ou como lhe chamam por estas bandas "Zé Bolachas" (vocais, guitarra), Paulo Rodrigues (bateria) e mais tarde Aboo Gani (baixo) vinham a desenvolver um projeto chamado Mamihlapinatapai, provavelmente quem estiver a ler isto demorará uns quantos meses a conseguir pronunciar este nome de origem Yaghan, que significa "duas pessoas olham uma para a outra sendo que ambas desejam que a outra pessoa faça o que ambos desejam mas nenhuma delas está disposta a fazê-lo", numa tradução própria. Alguns concertos no Montijo, nomeadamente na Feira Dona Edite ou para lá da ponte no Cá-Fusão deste ano deram algum hype ao trio de Acid Jazz Experimental muito pouco lúcido e com um frontman algo carismático, e agora apresentam-se ao mundo com um primeiro EP homónimo "Mamihlapinatapai I".
 Em termos sonoros não é o grupo mais complexo do mundo: Em "Linguadaluz I" um baixo groovy estabiliza por certo a bateria plate-full de Paulo, aqui e em quase todas as faixas. Aquilo que torna (eventualmente) estas faixas verdadeiramente fascinantes são a tenacidade de João, ora calmo e suave como o baixo que a acompanha, ora prolífero e violento, tudo isto quase de forma improvisada.
 Para além da capacidade de estruturarem melodias jazzy-groove, há uma certa frustração política em "Bolo de Nóz", depois convertida num comedy spoken divertido que só revela a personalidade carismática de João, que liberta toda a tensão e frustração que uma letra dessa natureza poderia carregar: "Digam aos políticos que nós queremos é bolo de noz, para nós, queremos subsídios em bolo de noz (...) queremos que o bolo de noz não tenha IVA a 23%, a 3 ou nenhum"...
 Para terminar com o alegre, Reggae-blasted rocksteady "Rejeitar", que solta mais escrita non-sense sobre uma possível história de amor na rua Tabu?
  Não é emblemático nem nada do género mas são faixas bem gravadas que apresentam temas singulares, seja na composição ou na própria concepção de cada faixa. Acima de tudo Mamihlapinatapai conseguem um cartão de visita que poderá ser importante para futuros concertos e toda esta leveza e falta de seriedade combinadas com uma sincronização perfeita de instrumentos, melodias alegres e coragem para experimentar acordes progressivamente podem, no futuro, colocar a banda num nicho onde poucos poderão alguma vez sonhar alcançar.

Ouçam Mamihlapinatapai I