Quelle Dead Gazelle são a dupla formada por Pedro Ferreira e Miguel Abelaira, que há três anos vai demonstrando uma sonoridade fora do comum inspirada pelos ritmos e vibes africanas. Estivemos à conversa com o leão e a gazela no Haus a tentar descobrir tudo sobre o "Maus Lençóis" e o percurso da banda até se tornar uma das mais influentes no mundo alternativo português.
Montijo Sound - Bem, então para começar gostava de perguntar porquê tanta inspiração em África? É um continente que visitam muitas vezes? Miguel Abelaira - Epa...nunca fui... Ou melhor, fui mas era muito pequenino. Mas a culpa é do Pedro!
Pedro Ferreira - Porquê?
Miguel - Porque ouves música africana.
Pedro - Sim, e é uma coisa que nos está no sangue, não é. Mas não há assim nenhuma razão em especial, decidimos simplesmente. MS - Tem a ver com as vossas influências musicais então? Pedro - Acabámos por ir lá parar, não sabemos bem como, mas foi aquilo que saiu. MS - Se tivessem oportunidade de ir a África e tocar onde quisessem, que país escolhiam? Pedro - Íamos ao Burundi, é o nome de uma música nossa. Acho que íamos lá. Não sei o que há no Burundi, mas seria aquilo, seria assim. MS - O que é uma "Afrobrita"? Pedro - Uma Afrobrita é... a junção de duas palavras, que são "afro" mais "brita"... Miguel - O que é que é brita neste caso? Pedro - É jarda! MS - Quando eram miúdos ouviam o quê? Alguma dessas bandas se pode comparar com Quelle Dead Gazelle? Miguel - Eu ouvia AC/DC, ouvia bué AC/DC mesmo. Epa, não me parece haver grande influência de AC/DC... (risos) Pedro - Nós somos melhores que AC/DC c$&%!lho! Miguel - E Red Hot Chilli Peppers, também ouvia muito disso... Pedro - Eu ouvia Limp Bizkit, o meu primeiro CD foi de Limp Bizkit, o "Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavoured Water" e é um espectáculo! É um disco fantástico! Mas ouvia assim umas coisas variadas...
MS - E agora o que é que passa pelas vossas playlists?
Pedro - Eu só tenho ouvido hip-hop... Miguel - Epa eu não tenho ouvido música, isto agora um gajo às vezes esquece-se que tem de ouvir música (risos). Pedro - Eu também já ouvi mais, quando o meu ipod estava vivo, só que o meu ipod faleceu e agora é mais no carro, mas quando ponho é hip hop e assim rock. MS - Bro- X e assim? Pedro - Também, também mas isso é mais avacalhado.
MS - Sei que muitas bandas não têm essa preocupação mas se conseguissem descrever o vosso som em poucas palavras como é que o descreviam? Pedro - Eu por acaso continuo ainda hoje sem fazer a mínima ideia do que é aquilo! Não sei, não consigo descrever muito bem. Miguel - Mas acho que passa um bocado pelo conceito de "Afrobrita", é um bocado isso. Pedro - Sim, mas já passou mais... Agora menos, mas é mais ou menos, sim, pode ser, pode ser.
MS - Como é que vêm a vossa partnership? Como é que se conheceram? Falem-nos um pouco disso...
Miguel - Conhecemo-nos no quinto ano! Mas não éramos amigos, o Pedro não era nada fixe (risos). Pedro - Não, ele era um puto, era dois anos abaixo de mim. Eu também era um puto, as ele ainda era mais puto do que eu.. Miguel - Mas eu era "dos fixes". Pedro - Exatamente, ele era dos fixes. Mas depois tivemos uma banda mais tarde em que eu tocava guitarra solo e ele tocava guitarra ritmo, só para veres a desgraça.
MS - Não havia mais ninguém? Pedro - Isso uma banda de uma guitarra solo e uma guitarra ritmo ia ser uma coisa gira. Não, havia mais pessoas, mas pronto era uma banda de jovens adolescentes. E pronto, depois encontrá-mo-nos mais tarde e fizemos este "projetozito".
MS - Foi aí que as coisas se tornaram mais a sério? Os dois em uníssono - Sim!
MS - Alguma vez pensaram em trazer um terceiro elemento para a banda? Pedro - Já e para aí uma vez ou duas. Miguel - Mas como somos um bocado calões e preguiçosos fomos adiando convidar outra pessoa e acabámos por ficar só nós os dois. Pedro - Exato, começámos a perceber que poderia funcionar assim e acho que funciona. Espero mesmo que funcione, senão tá tudo f$&?do. (risos) Mas funciona assim e na altura foi essa a decisão, acabámos por não convidar ninguém. MS - E em relação ao "Maus Lençóis", primeiro, porquê "Maus Lençóis" e o que fazem antes de um concerto para não se sentirem em maus lençóis? Miguel - Não podemos dizer ... é segredo... (fica a dica) Pedro - Mas o nome achámos que se enquadrava no ambiente das músicas do álbum. Miguel - É um bocado a sensação que dá quando ouves o álbum, pelo menos foi o que nos pareceu, um ambiente bué tenso e desagradável e pronto encontrámos este nome para descrever isso mesmo. MS - Do álbum qual é a música que vos dá mais prazer tocar ao vivo e porquê?
Miguel - O "abismo", eu gosto bué de tocar o "abismo"! Pedro - Há uma malha que é a "abismo" sim, que é daquelas em que eu me engano menos. Miguel - Por isso é que é fixe. Pedro - Exato, por isso é que é fixe. Mas essa e a outra... (Pedro esquece-se do nome da música e fica um tempo a pensar) A abismo e o single, a "Pedra- Pomes".
MS - Ia falar dessas porque foram aquelas em que fizeram os vídeos. Como é que surgiu a ideia de tocarem mesmo num abismo? Miguel - Foi o pessoal do Tradiio, os rapazes que fizeram o vídeo, o Filipe e o Duarte. Aquilo fica nas traseiras do escritório deles. Pedro - A ideia não foi nossa, foi deles. Miguel - Na verdade nós nem sequer sabíamos que íamos tocar num abismo e eles nem sequer sabiam que íamos tocar a "Abismo", portanto foi um bocado aleatório. Pedro - Foi um bocado wow ok olha correu bem! (risos) Foi mesmo isso, chegámos lá e por exemplo o Miguel estava a tocar e atrás dele estava uma cena com "esta altura" (exemplifica a altura do objeto que estava por trás do Miguel com as mãos) e se ele caísse ele morria bué vezes seguidas. Aquilo no vídeo parece alto, mas era ridículo e era um espaço pequenino. E ainda tivemos que levar os amplificadores lá para cima e a bateria, foi muito desagradável essa parte mas foi fixe.
MS - Vocês não estavam presos nem nada, isso é para meninos não é? (riem-se os dois e concordam) MS - E no Pedra-Pomes têm aquele "bacano a dançar"... Pedro - Temos aquele bacano a dançar temos. Miguel - É o Tiago Garcia, é um jovem do Porto, acho que é do Porto. Pedro - Nós não o conhecíamos nem conhecíamos o rapaz que fez o vídeo, pronto entregámos-lhe a ideia e foi ele que arranjou o conceito e foi ele que arranjou esse amigo dele para fazer esse vídeo. É engraçado que nós só os conhecemos pessoalmente quando fomos ao Porto no outro dia tocar no lançamento do álbum. MS - O que é que lhe disseram quando o conheceram?
Pedro - Convidámo-lo para o palco para dançar a Pedra-Pomes!
MS - E ele foi?
Pedro - Foi! Miguel - E dançou a "Afrobrita" no final também, que foi espectacular. Pedro - E fazia anos nesse dia também. É só coincidências, isto está cheio de coincidências.
MS - Como é que sentem que este álbum se diferencia do EP? Sentem algum tipo de evolução enquanto músicos/pessoas?
Miguel - Claramente, acho que este já tem uma cena bué mais própria. No outro notava-se mais influências de outras cenas, este já é uma cena mais... Pedro - (completando a frase) Mais identidade. Miguel - Como assim identidade? Pedro - Não que o EP não tivesse, mas este tem mais identidade. E houve uma evolução notória de ambas as partes espero eu. Miguel - Três anos também, se não houvesse... Pedro - Sim, estávamos tramados.
MS - Como é que tem sido o balanço pós-primeiro álbum? Sentiram que houve um hype a rondar o lançamento?
Miguel - Eu senti mais hype quando lançámos o EP, na verdade, se bem que o concerto de lançamento do álbum estava cheio. Pedro - Mas sei lá, passaram dois ou três anos desde que lançámos o EP e depois acabámos por não fazer nada... Demorámos bastante tempo a lançar o álbum, o que ás vezes é um bocado difícil para uma banda tentar recuperar, é como estar a fazer tudo de novo outra vez, estar a tentar ganhar terreno com aquilo que já se perdeu, sei lá quase três anos é bué tempo. Mas a reação tem sido boa, tanto que ainda há pessoas que se lembram de "Afrobrita", o que é fixe. MS - O que diriam a uma pessoa que não vos conhecesse para ouvir a vossa música?
Pedro - Epa, para manter a fasquia baixa (risos). Olha, ouve aí esta cena estranha. Miguel - Epa não faço ideia. Pedro - Então não ouças, vai ouvir outra cena qualquer (risos).
MS - Há algum mítico gig que vos tenha marcado mesmo? Miguel - Houve um concerto em Paredes de Coura, na Vila que estava imensa gente, foi espetacular. E eu disse ao microfone que tínhamos cds à venda e havia buéda gente a querer comprar mas depois apercebemo-nos que os cds tinham ficado em Lisboa... Pedro - Mais uma vez os cds tinham ficado em Lisboa... Miguel - E o lançamento do "Maus Lençóis" no Musicbox também foi fixe, não estávamos habituados a ver tanta gente dentro de uma sala só para nos ver a nós. Pedro - Lá no Offbeatz, a primeira vez que tocámos também foi fixe. O nosso primeiro concerto foi no quintal de uma amiga nossa, mas vá esse foi o segundo concerto, mas o primeiro oficial no Offbeatz do Musicbox, esse foi fixe, para aí em 2012. MS - Bem, então foi isto, mandem o vosso shoutout para o Montijo Sound
Pedro - Eu sou o Pedro... Miguel - E eu sou o Miguel e nós somos os Quelle Dead Gazelle e temos aqui o Montijo Sound! Keep it real niggas! Pedro - Pronto, como o Miguel disse, Keep it real!
Em idos de maio, num jardim em S. Bento, houve passeata pelo imaginário dos Salto. Os portuenses não puderam estar todos presentes mas o Guilherme Ribeiro queimou as "mãos pelo futuro", numa agradável tarde abrasadora. Fica aqui a conversa: MS: Há dois anos sentiram-se obrigados a adicionar novos membros para a banda, onde e como é que isso influenciou a visão que tinhas para o som do grupo? Guilherme: Isso partiu de uma ideia minha e do Luís, que somos os fundadores dos Salto e a ideia de termos mais duas pessoas vinha muito da necessidade de partilhar a música que fazíamos com mais alguém - nesse processo de fazer música. Não queríamos contratar músicos para ter ouvido, não era essa a cena, queríamos alguém que tivesse um ouvido, connosco nos Salto. Na sala de ensaios a criar, a fazer, a experimentar com o mesmo grau de liberdade que nós sentimos enquanto Salto. Não nos sentimos presos a isto ou aquilo... e vínhamos de um ano em que tínhamos tocado muito o primeiro álbum, 2013, que era um álbum que tinha imensos sintetizadores e imensas camadas, a cena de estar em estúdio a gravar por cima mais isto e mais aquilo... Tínhamos feito uma versão reduzida disso mas que ao mesmo tempo já era uma bastante completa daquilo que se passava no primeiro disco em que o Luís estava a tocar em dois teclados e, de repente, pegava numa guitarra ou pegava no baixo. Trinta por uma linha! Então se não era muito fixe nem para ele estar em palco, veio a necessidade de pôr mais pessoas para cada um também explorar melhor a sua parte, para se explorar com mais à vontade... Falámos com o Tito, que já tinha tocado connosco no lançamento do primeiro álbum e com o Filipe, que nunca tinha tocado connosco mas que fez o curso da Escola Superior de Música connosco. Já o conhecíamos bem e fazia sentido partilhar um entusiasmo parecido com a música. MS: Depois de "passeio dos alegres", porquê continuarem a brincar com a gravidade e não chamarem à banda "viagem espacial sem retorno", com essa fusão e mescla de géneros, sentem as vossas possibilidades infinitas em termos de som e não presos ou obrigados a seguir certa linhagem de sonoridade? Guilherme: Não nos sentimos minimamente presos, não faz sentido sequer. Não faz sentido para nós! É ótimo haver bandas que se dedicam a fazer rock, rock psicadélico, rock progressivo, música eletrónica, hip hop ou o que for... e que se dedicam a vida toda a fazer isso! Nada contra. Para nós é muito difícil. Não é por algum medo de nos comprometer, é mais pelo nosso fascínio com as coisas novas que vamos ouvindo todos os dias, às vezes vou ouvir coisas novas que eram dos anos 30, se for preciso! Não vamos andar à procura do que vai sair este ano e do que temos que ser parecidos, nada disso. Estamos é à procura da música que nos fascina, entusiasma e deixa completamente overwhelmed e que nos dá pica tocar. Não estamos a pensar em género nem em estilo, estamos a pensar numa cena que para os quatro faça mesmo sentido tocar. MS: É fácil chegarem a concordância? Tem todos uma espécie de química, nesse sentido? Guilherme: Nós também fazemos música juntos porque já há uma série de coisas que partilhamos. Desde gostos - embora haja muitas ramificações mais específicas - há uma série de coisas que são transversais a todos e é por isso que estamos juntos. Se um de nós só gostasse de música clássica era muito difícil estar a fazer isto. Só se fosse sem paixão nenhuma e quase por obrigação mecânica. Por isso, essa concordância é um desafio. Claro que há coisas que, de repente um não sabe nem estava à espera de ir por aquele caminho e de repente até fica "Isto faz todo o sentido!". Mas acho que é isso, como temos gostos e maneiras de estar que são um bocado transversais a todos, com as suas diferenças, essa concordância no que queremos fazer acaba por ser fácil. No que queremos que Salto diga, musicalmente.
MS: Falando do single "Lagostas" até porque gostamos muito de dançar ao som deste... De onde vem o nome da faixa e é sobre o quê?
Guilherme: "Lagostas" é um nome de guerra! É uma cena como quando estás na sala de ensaios a fazer uma música, não sabes que nome é que lhe dás porque não tem nome. Mas depois acabou por funcionar bem no ambiente do vídeo e no ambiente que a letra sugeria. A tal Lagosta que vês no vídeo, uma personagem meio fora deste mundo, mas ao mesmo tempo faz parte e se calhar cada um de nós é um bocado daquilo... A letra fala sobre alguém que está em situações que não são muito possíveis nem reais mas que só de se poder imaginar nessas situações, já garante ali uma probabilidades destas poderem vir a acontecer. A cena de imaginar toda a humanidade no fundo da rua, isso não acontece! Primeiro, tu não sabes o que é toda a humanidade, muito menos no fundo da rua... "Não vou jantar" é no fim disto tudo. "Caramba, é tanta coisa que está a acontecer aqui à volta!" que tu não tens tempo para isso, não há vontade, há muito mais a fazer... Mas foi um bocado natural, não muito pensado. Podia ser, mas "não vou jantar" nem tem a ver com o nome "Lagostas" e depois as coisas acabaram por se juntar e fazer algum sentido. Na Antena 3 - a rádio que nos apoia - quando mandámos o single disseram "Fogo, lagostas, vocês estão a viver acima das vossas possibilidades!" e ouviu a música e disse "Fogo, isto é mesmo fora, vocês falam de lagostas e dizem que não há jantar!? É mesmo adequado ao momento que se vive agora!". Mas não é a pensar nisso, é sobre situações que te fascinam tanto que tu ficas aí mesmo sem possibilidade sequer de pensar em jantar. Tem umas imagens caricatas e engraçadas, tipo aquela cena de imaginares a tua idade ao lado de outro. Tu não vês a idade, nem a idade de outra pessoa. Tu vês uma pessoa que por acaso tem uma idade, tem uma história, tem uma vida, tem o que for... "Encontrei a minha idade/ Ao lado da tua/ Com pressa de quem corre/ Com pressa de quem muda de roupa para jantar". A idade corre com pressa, a idade não está a andar para trás, não vai devagar, vai sempre a um ritmo cruzeiro e muitas vezes, quando passam quarenta anos, as pessoas ficam "Eish, já passaram quarenta anos, foi a correr!" Também tem a ver com o facto do tempo passar e perderes oportunidades em que podes fazer coisas importantes e sentes que é tempo perdido, que o tempo passou ainda mais rápido. Ao mesmo tempo, quando o tempo passa rápido, passa bem e não te custa a passar... Estás a aproveitá-lo bem. Não fala só sobre uma coisa.
MS: Eu interpretei mais no sentido de todos passarmos por isso e de estarmos todos no mesmo caminho. "Eu não estou a ver nomes nem números e estou a ver aqui uma pessoa que está a passar pelo mesmo". Como quando encontramos química com alguém, apensas numa conversa?
Guilherme: Sim, mas é isso e tem essa possibilidade de interpretação, obviamente. Não são histórias que nos aconteceram e que são fechadas, têm uma possibilidade de interpretação... Obviamente que queríamos dizer uma série de coisas com isto mas à medida que vamos "entrando" mais na letra e vamos perder mais tempo a "olhar" para ela e a cantá-la, também vão surgindo mais possibilidades. Isso é constante nas letras de Salto, nós não somos contadores de histórias... mas também porque não sabemos ser. Nem sentimos vontade de ser. Mas por um lado não queremos nem contar histórias. É uma maneira muito natural de escrever, por pessoas que não são propriamente escritores e que não se dedicaram - embora agora temos vindo a dedicar mais. Também tens de crescer nesse aspeto e saber usar melhor jogos de palavras. Não somos, de todo, escritores nem poetas .
MS: O quão conceptual pode ser passeio das virtudes? Se existisse um passeio onde o álbum fosse passado, onde é que esse passeio seria?
Guilherme: O álbum resume muito a tour "Mar Inteiro", que fizemos. Foi a primeira fez que fizemos uma coisa do género e foram umas doze ou treze datas muito concentradas. Foi assim muito condensado, mesmo. Nessa altura não tínhamos o álbum, sequer. Tínhamos a "Passeio das Virtudes", a "Mar Inteiro", a "Estrada Gasta" sem andar a tocar, a ideia da "Lagostas" mas sem letra... A "Queimo as Mãos pelo Futuro" mas também não andávamos a tocar... A "Uma de cada vez" sem letra, que nos dava alta pica tocar... e foi um processo de conhecimento como banda de quatro pessoas. Com o Filipe e com o Tito ainda não tínhamos bem essa dinâmica, o Tito diz que essa altura serviu de "pré-época". São muitos passeios, são muitas viagens. É isso tudo resumido num álbum mas ao mesmo tempo não foi tudo escrito e composto durante aquela tour. Mas aquela tour serviu para ganhar tanta dinâmica como banda que foi um tempo importante para o álbum nascer. Não dá para resumir a um "passeio" mas a tour "Mar Inteiro" é o início disso, sem dúvida.
MS:O que ganha uma banda sediada no Porto em relação a uma banda lisboeta? O que é que é melhor no Porto?
Guilherme: Posso dizer que as francesinhas são melhores no Porto, de certeza (risos)! As tripas... Estou a brincar! Gastronomicamente, há coisas que são melhores! Mas a nível do que é que é melhor ou pior... não sei, só agora é que estou a experimentar a vida de Lisboa, mas é no Porto que ensaiamos. Sei lá, aqui (Lisboa) tem mais dias de sol do que no Porto. Para relatar coisas que ouvi, há uma imagem que as bandas de Lisboa costumam ter das bandas do Porto: que tocam muito bem. Se calhar é porque tem mau tempo e se calhar passam mais tempo na sala de ensaios (risos). Eu não tenho grande opinião sobre o que é que há a mais num sítio do que noutro. És obviamente um bocado do sítio onde nasces e isso torna-te na pessoa que és. Muito possivelmente, se fossemos de Lisboa fazíamos uma coisa diferente. Mas isso é natural para qualquer área de coisas mais artísticas ou criativas. Um arquiteto que estude em Lisboa e outro no Porto terão orientações diferentes, estilos diferentes. Na música isso também acontece e nota-se. Sem ser sotaque, as pessoas notam "soa-me a uma banda do Porto!". Eu não sei muito bem quais são as características, mas há muita gente que reconhece. Os Salto têm muito a ver com o Porto nessa medida em que sempre foram lá que fizeram música, mas ouvimos música de tantos lados do mundo e de tantas épocas diferentes que também acabas um bocado por ser desses sítios todos e dessas épocas todas. Não sei, é diferente.
MS: A vossa sonoridade remete-nos para dentro de um videojogo dos anos 80, principalmente a do album homónimo. Se esse jogo existisse e fosse comercializado, como é que o descrevias?
Guilherme: Um grande jogo, por acaso! Assim um jogo com uns samurais que andam de carro, tipo Super Mario Kart e que não lutam, deitam aquelas bananas para despistar os que estão atrás... Claramente 2D, jogo interminável, não acabam os níveis. Quando, de repente, pensas que acabaste o nivel voltas ao primeiro e as cores são ao contrário... Carregas para a direita, ele vai para a esquerda. E é sempre a evoluir assim, queres subir e tens que saltar para descer! Coisas assim. E ao mesmo tempo, joga-se futebol! Karts com pessoal a jogar futebol vestido de samurai. Ao mesmo tempo, tens os níveis em que podes jogar aquele Bejeweled (risos), que é o jogo mais ridículo. E Candy Crush, fogo! Tem minas, obviamente, tipo Minesweeper. É tipo todos os jogos juntos, a 2D, com níveis infinitos. Acho que é isto.
MS: No vosso ambiente de ensaios, tendo em conta a vossa dinâmica de criação e ideias… como caracterizavas a energia e o papel de cada membro da banda nisso?
Guilherme: Mesmo aí, nós javardamos um bocado, principalmente eu e o Luís que pedimos ao Tito para tocar bateria, pegamos no baixo do Filipe e começamos a tocar... Não há um papel de um ou de outro, o Filipe não é só baixista e o Tito não é só baterista. De repente trocamos de instrumentos e tá tudo a tocar outra coisa e até nasce uma ideia para uma música aa custa disso. Com a "Lagosta", o fim que usámos ao vivo, nasceu exatamente disso. Sabíamos bem como queríamos acabar aquela música ao vivo. De repente, a música desaguou num instrumental mesmo forte, quase com um riff coletivo. As letras acabam por estar mais comigo e com o Luís, mas acho que veio muito também porque foi assim que começou. Escrevemos o primeiro álbum e o segundo também, tirando duas letras que são do Lucas... A nível de feitio e personalidade o Tito é o mais calmo... o Filipe é calmo mas, musicalmente, está a curtir que nem um doido. O Tito é tranquilo, mesmo na postura de tocar bateria... O Filipe é mais comedido mas quando se passa é tipo WOW. Eu e o Luís somos um bocado irrequietos, estamos sempre ali meios elétricos. Mas também vai mudando muito, depende dos dias. Somos um bocado inconstantes, isto é a conclusão.
MS: Dentro da cena tuga, que bandas é que andam a ouvir?
Guilherme: Olha Throes + The Shine, Moullinex, Capitão Fausto. O mundo é tão pequeno que, de repente, já os conheces a todos... A primeira vez que tocámos com os Capitão Fausto foi em 2011, em Lisboa, e eles tocavam quase só covers... Antes de irem, sequer, gravar o "Gazela". Assim bandas tugas, Gala Drop, BISPO, Modernos, Glockenwise. Estas são mais a falar pelos quatro. Há mesmo muita coisa e eu muito provavelmente estou a esquecer muitos.
MS: Se pudessem dar um salto a qualquer parte do mundo, onde e a quem é que gostariam de apresentar as vossas malhas?
Guilherme: Curtíamos de ir ao Canadá estar com os BADBADNOTGOOD, quase de certeza. Ir a Inglaterra estar com o Caribou e Floating Points. Nos E.U.A. íamos dar uma perninha a vários sítios, com os Battles. Na Austrália íamos ver os Pond e cá em Portugal estávamos com o pessoal todo que já estamos. Acho que curtiamos de estar com o SHIGUETO. Mais! Já agora é para perder um ano a viajar! Ah, íamos ter com a St. Vincent.
MS: Falando de planos para o futuro, qual é o concerto que mais aguardam ansiosamente?
Guilherme: Na verdade, são muitos, nós adoramos tocar! Obviamente Super Bock dia 16, vamos obviamente invadir o palco do Kendrick (risos)! Nós não, o nosso é o Antena 3.
Miguel Vilhena, Tiago Vilhena e Pedro Castilho. Os Savanna começaram em Viseu e vivem a vida ao rubro com confettis, um imaginário sádico e "Dreams To Be Awake" na manga. Já podes ler a entrevista, se não queres "ferrar o galho".
MS: Vocês lançaram o vídeo da música "Get it Right". De que formas é que o vídeo se enquadra na música e em que é que se basearam para o fazer?
Miguel Vilhena: Sonicamente, a "Get It Right" difere um bocadinho das outras músicas que a gente tem feito. Surgiu a tentativa de fazer uma coisa um bocadinho mais plástica, acho que se nota que há menos elementos orgânicos naquela música do que nas outras... Foi uma espécie de uma experiência, tentar procurar esse caminho mais marcado e um bocadinho mais quadrado. Fez sentido para nós que, no videoclip, se inserisse essa estética um bocadinho mais plástica, daí termos seguido um caminho mais digital em que usámos técnicas mais modernas, ao contrário da "Gods We Are" em que usámos película em super 8 e é um vídeo muito mais orgânico. A ideia do vídeo era seguir mais um bocado essa vertente mais rija da música, que é um bocado diferente das outras músicas do disco.
MS: Reparámos que a cor é importante no vídeo deste single. O factor cor é um elemento muito presente no álbum que aí vem? Pensaram muito nisso ou foi espontâneo?
Tiago Vilhena: Em relação a isso temos sempre atenção. Tanto nos vídeos, como nos concertos normalmente pedimos ao técnico de luz para usar esta cor, aquela cor... Nos videoclips, principalmente nas capas de singles até... Sei lá, no disco usámos tons assim mais pastel e esbatidos...
Miguel Vilhena: Tem bué piada referirem isso, por acaso nós ligamos muito a essa questão mais cromática mas sem nunca falarmos muito sobre esse assunto e por acaso... Tenho uma ideia mesmo fixe para a capa do próximo disco e a cor desse disco já está mais ou menos decidida na minha cabeça. Mas é segredo.
MS: Quanto àcover que lançaram em julho de 2015 da música "Lord Of This World" dos Black Sabbath... De onde surgiu a ideia de fazer algo desse género?
Tiago Vilhena: A ideia de ser Black Sabbath foi do Miguel. Sempre quisémos fazer uma cover, sempre tivemos mil ideias para mil músicas diferentes, já tocámos algumas covers na altura do EP, mas desde o lançamento do álbum nunca nos decidimos a fazer uma. Surgiu esta porque ele deu esta ideia e um dia chegou ao estúdio e fez a cover.
Miguel Vilhena: Eu sou mesmo bué fã de Black Sabbath, mesmo bué. Na altura que fiz essa cover andávamos a discutir qual é que queríamos fazer. Toda a gente tinha sempre mil ideias, principalmente o meu irmão que todos os dias sugeria para aí dez músicas... E eu há bué tempo que achava que aquela malha (não da maneira como é a música original) tinha ali um feeling escondido que eu gostava bué de explorar. Um dia cheguei ao estúdio e decidi: "Vou pegar nesta música, tentar seguir este caminho que eu tenho na cabeça para esta música". Fiz aquilo, eles curtiram e decidimos que fazia sentido lançar como Savanna.
Tiago Vilhena: A ideia do vídeo tinha surgido até antes dessa música existir.
Miguel Vilhena: Pois é, pois é. A ideia era tua, acho eu.
Tiago Vilhena: É capaz. Depois adaptámos aquilo, fizemos aquilo na cozinha, com coisas da cozinha ali à volta e todos apertados. Miguel Vilhena: Comprámos um daqueles sopradores de jardim para soprar as folhas e limpar o chão das ruas e um percussionista amigo nosso foi tipo o "técnico dos confetis". Pegou naquela cena e ia despejando os confettis para cima dos sopradores.
Os irmãos relembram que a pressão dos 5kg de confettis gastos chegava a magoar, tal era a espessura destes. Ficámos a descobrir mais uma das maravilhas das lojas de carnaval, inclusive ideias para futuras partidas.
MS: Quão importante foi a influencia dos Black Sabbath no vosso som e que outras bandas também tiveram impacto na vossa sonoridade? Miguel Vilhena: Black Sabbath... já são os Reis do Riff , eu sou mesmo muito fã do "riffzão" e há algumas músicas em Savanna que eu tentei seguir mais esse caminho. Por exemplo, na "Dreams To Be Awake" há ali uma parte super dreamy e espacial e depois, de repente, há um contraste mesmo bruto (imita o riff da música). É bué Black Sabbath, aquilo. A "Gods We Are" também é um bocado... Há bué influência de Black Sabbath mas acho que de uma maneira muito menos óbvia. Imagina, uma das nossas maiores influências e acho que posso falar pelos três, é a música brasileira. Música brasileira dos anos 60 e Black Sabbath são coisas que não têm nada a ver uma com a outra. Eu não consigo encontrar nenhum paralelismo entre uma coisa e outra mas influenciam bastante e acho que se consegue notar as duas coisas ali, isso é fixe.
MS: Qual é que consideram que foi o ponto de viragem para o início do vosso sucesso? Aquela volta tipo "wow, agora temos meio caminho andado"! Miguel Vilhena: Imagina, quando lançámos o álbum somos capazes de ter sentido "OK, houve aqui um boost fixe!" Tiago Vilhena: Houve, mas foi gradual! Miguel Vilhena: Eu sei de uma altura em que eu senti "Epá, pera aí que isto até está a resultar", que foi quando fomos tocar a Coimbra e éramos a única banda. Estávamos mesmo "porra, quem virá aqui para nos ver?" Era uma sala gigante e estava cheia de pessoal só para nos ver... Eu até fiquei um bocado emocionado! Do tipo "o que é que se passa aqui?". Foi mesmo fixe... Tiago Vilhena: Se bem que estavam sempre a chamar-me de Bernardo, não sei porqe (risos)!
MS: Quais os concertos futuros que mais vos entusiasmam?
Tiago Vilhena: Alive, Indie, Maus Hábitos... Estamos entusiasmados com todos!
No entanto, chegam a um consenso: Aguardam com a mesma pica pelo concerto no "Maus Hábitos" porque curtem muito do Porto e desta vez irão tocar sozinhos.
MS: Agora um pequeno desafio. Se cada faixa do vosso álbum "Dreams To Be Awake" fosse a BSO de um filme ou sonho marado, qual é que seria a história de cada faixa? Miguel Vilhena: A primeira malha, "Destruction Derby"era um fim do mundo: o mundo a acabar, tudo a explodir em milhões de cores por todo o lado. Como se estivessem a explodir confettis por todo o lado, tudo a morrer! Imagina, tudo a ser desmembrado mas todos bué felizes.
Tiago Vilhena: "Fancy Pants" é um estado de perfeita confusão em que podes estar num sítio completamente normal e nada está a fazer sentido, apesar de não haver nada a fugir à regra. A percepção que tu tens em relação a isso é como a letra diz. É só uma cabeça a não perceber o meio envolvente.
Pedro Castilho: A "Hot Winds" é uma viagem de carro a beira mar, num final de tarde depois de um dia bom.
Tiago Vilhena: O título da música é uma tentativa de representação e sentires assim uma brisa no verão, na cara, e sentires-te bué bem.
Miguel Vilhena: A "Safari" (risos)... Como é que eu vou explicar isto? Estás a ver aquela música "Quando alguém nasce, nasce selvagem" (trauteia a música), só que com um bocado menos de azeite? É essa música, com uma letra diferente e com um instrumental diferente.
Tiago Vilhena: "The Lab" é um sítio que nós frequentávamos muito, já não existe. Existe o upgrade... Mas é um sítio na Graça, que se chamava "O Laboratório" e agora chama-se "A estrela de não sei quê ". Aquilo era um sítio espectacular e estávamos lá mesmo muitas vezes. Eu cheguei a dormir lá noites seguidas. Foi a última música a ser escrita, pensámos em escrever sobre o que tínhamos feito ultimamente. Miguel Vilhena: "Dreams To Be Awake" fala sobre sentires que depois de muitos entraves para fazeres alguma coisa, finalmente percebeste como é que se faz, avanças com confiança para fazer isso mas ao mesmo tempo olhas para o caminho e lembras do percurso que foi até lá chegar. Apercebes-te do quão importante foi esse percurso. Só que isto mais divertido e menos chato. A "Rise Of The Newborn, secalhar nunca disse isto mas esta música é um bocado uma ode aos "10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte". Este tema é o que tá na letra, é tipo estão quase a passar aqueles 10 000 anos...
Epá mas acabei de perceber que me enganei! Eu acabei de dizer que na nossa letra estavam quase a passar os 10 000 anos para poderes voltar a terra, como o José Cid diz, mas devia ser 9 000, por isso acabaste de me apanhar aqui num erro crasso. Afinal a música não é nada sobe os 10 000 anos, é sobre uma história parecida (risos).
Tiago Vilhena: Só que em vez de serem 10 000 anos eram 20 000 e foi isso tudo que foi pensado nessa altura.
Miguel Vilhena: OK, "Gods We Are" é sobre alguém que é buéda boss e olha para outra pessoa, consegue ver nessa pessoa o potencial e dá-lhe a mão para ficar Boss com ela. Mas alguém que já conseguiu chegar a um nível de olhar por cima e apercebe-se que há alguém que tem o potencial mas ainda não chegou onde ele chegou... mas ele vai-lhe dar a mão para eles juntos poderem ser o Boss.
MS: Voces pensam em algo em específico quando dizem isso? Um grupo de pessoas, por exemplo? Miguel Vilhena: Sim, muitas vezes sim... Epá, eu não posso dizer isto. Posso dizer. Por exemplo, a "The Fix" é sobre o Pedro Castilho.
Pedro Castilho: E eu não sabia disto...
Tiago Vilhena: Eu também não!
Miguel Vilhena: Não é só sobre o Pedro Castilho, mas pronto..
Pedro Castilho: Ele dedicou-me uma música, que querido...
Miguel Vilhena: A "FuzZzZz" é sobre dormir. Dormir é fundamental.
MS: Então calma, se estamos a falar de um sonho, se cada faixa fosse um sonho... essa seria sobre dormir num sonho, ou seja, é um Inception. Se formos bem a ver...
Miguel Vilhena: Pois, porque esta música não só sobre dormir, é sobre ter sono, é tipo sobre... "ferrar o galho". Não sabem o que é "ferrar o galho"? É dormir. Parece que quer dizer outra coisa (risos gerais)
Miguel confronta um membro dos Ditch Days que vem cuscar a entrevista e pergunta se este conhece o significado da expressão "ferrar o galho". Segue-se uma agradável e perversa sessão de esclarecimento das possíveis conotações. Qual será a possível origem dessa expressão? Fica a dúvida no ar... Ao que todos concluem que a "FuzZzZz" pode ser sobe dormir todo nu.
Tiago Vilhena: Olha, a "Destruction Derby 2", para mim, é a música mais triste de todo o sempre. É uma tristeza... de todas as músicas, pelo menos, que estão aqui.
Miguel Vilhena: Há uma coisa bué engraçada sobre esta música. A letra desta música foi escrita por mim e pelo Tiago e os dois tirámos conclusões diferentes do que estávamos a escrever. Para mim, é uma letra feliz, para ele é uma letra triste.
Tiago Vilhena: Mas mesmo uma tristeza horrorosa... Não gosto muito de pensar nisso.
Nisto concluem que triste é "Estou Triste", de Caetano Veloso.
Miguel Vilhena: A "Farewell" é sobre dizer Adeus. Mas se fosse um vídeo era tipo um GIF de uma hora, comigo a dizer adeus (exemplifica teatralmente e de forma graciosa) ao Pedro e ao Tiago. E eles estavam lá ao longe, no mar, num barquinho a dizer adeus.
MS: E tu em terra e eles é que iam?
Miguel Vilhena: Epá não sei, podia ser ao contrário...
Tiago Vilhena: Olha, já sei, pode ser como no "Jurassic Park" quando a terra se abre mas tu não ficas tipo "Não, não vás!", aceitas essa separação porque tem que acontecer. MS: Se houvesse um filme sci-fi de "Dreams To Be Awake" e fossem os protagonistas, qual seria o papel de cada um?
O Tiago sugere um filme "frito" realizado pelos Led Zeppelin "The Song Remains The Same" em que cada membro da mítica banda desempenha o papel dele próprio.
Miguel Vilhena: Imagina um planeta tipo Blade Runner onde há naves espaciais, mas uma cena pós-apocalíptica. Tudo f*dido. Mas assim mais afastado da zona urbana, há um castelo medieval gigante e eu sou uma espécie de um mago que é o dono do castelo, malvado e tenho uma espada. Mando poderes e tenho uma espada. Tiago Vilhena: Eu sou um gajo que controla a água. Consigo fazer com que a água congele, fique líquida, com que fique vapor... Eu própria, como tenho água no meu corpo, consigo voar. Se eu não gostar de ti, ao teres água no teu corpo eu posso secar-te (faz sons estranhos de feitiços mortais)... Mas eu não ia fazer isso porque eu não ia ser vilão.
Miguel Vilhena: Eu queria ser um mau que tem um fundo bom, tipo o Satan do Dragon Ball.
Pedro Castilho: Eu não vou chegar a lado nenhum, com a minha personagem. Vou só andar lá a fazer viagens no tempo.
MS: A fugir destes gajos?
Pedro Castilho: Sim e só ando a ver. É o que eu sou.
A conversa desvia-se para a obra-prima que é "Mosca na Sopa", de Raúl Seixas, que contém um som irritante de mosca produzido por um sintetizador. Voltamos à conversa dos personagens...
Tiago Vilhena: O problema de ter este poder é que ele é mesmo muito poderoso e eu não quero fazer mal às pessoas mas naquelas alturas em que alguém me irrita eu ia ter o impulso de fazer uma coisa que depois me ia arrepender. Quando há muito poder, isso pode ser mau... Até o Tio do Homem Aranha diz isso ao Homem Aranha: "Com grande poder vêm grandes responsabilidades".
Inicia-se uma conversa sobre os benefícios do poder da paragem do tempo. Miguel cobiça avidamente este poder e sugere uns planos maléficos para o seu uso.
MS: Vocês têm algum ritual nos ensaios e antes dos concertos?
Respondem que Pedro já tentou implementar o abraço de grupo, que não chegam a fazer, poque "tá sempre tudo mal disposto".
MS: O que é que podemos esperar para o novo álbum e o que é que muda deste o último?
Miguel Vilhena: Há montes de ideias, mas não é por ser segredo, mas nós nem temos a certeza do que é que vai entrar e o que é que vamos descartar. Ainda estamos muito a apalpar terreno, nós também não sabemos... Tiago Vilhena: Desde que saiu o álbum, todos nós desenvolvemos técnicas e gostos pessoais. O próximo álbum é capaz de ser uma fusão de todo este desenvolvimento que tivemos.
Fomos falar com a banda do momento, os Panado, trio de Lisboa que se deixa envolver com o psicadelismo e o garage sem ter sequer construido uma ponte sobre ambas. É rock fácil. É roque felino.
MontijoSound- Estamos entre familia, lógico que vamos gozar um bocado com a vossa cara...
Lourenço- É para isso que nós cá estamos.
MS-Primeiro, alguém pode explicar a capa do vosso já extinto "Épê", aquela do Creepy Cat? Está fantástico e assustador ao mesmo tempo, quem desenhou isso? Ou foram buscar à net?
Capa de "Épê" ou Creepy Cat album, de Panado (2015)
Diogo- A capa é de um gajo chamado Louis Wain, era um pintor inglês dos anos 20/30, e ele era obcecado por gatos...
Lourenço- E esse pintor acabou por desenvolveu esquizofrenia...
Diogo- E depois devido a viver tanto tempo com gatos começou a desenvolver uma esquizofrenia...
Lourenço- Quer dizer, eu acho que ele já tinha... Aquilo é super interessante porque tu consegues ver perfeitamente a evolução da doença nas pinturas. Ele ao longo dos anos foi sempre pintando gatos, e à medida que o tempo passava, os gatos tornavam-se cada vez mais disformes. Nas primeiras pinturas são gatos normais, são pinturas mais ou menos realistas, e no fim já nem se nota que está lá um gato....
Tens de ir procurar isso, vais curtir bué...
MS- E de todas as pinturas de gatos feitas pelo Louis Wain, porque é que escolheram "aquele" gato?
Diogo- Epá, aquele gato que escolhemos, pareceu-nos o mais certo, não sei explicar...
Lourenço- Eu recordo-me de quando era puto já ter visto aquela pintura, e depois do nada, logo que começámos a tocar juntos eu lembrei-me dela, mostrei-lhes, eles curtiram, e ficou.
MS- A foto adequa-se ao vosso tipo de som que inventaram? (risos)
Lourenço- Não necessariamente, eu percebo a pergunta devido à piada do "Roque Felino"... Mas foi uma coisa mais ou menos aleatória, foi uma atração estética mais do que qualquer coisa...
Diogo- Como passou tanto tempo, e o gato estava tão associado àquelas músicas, que para nós chegou uma altura em que não fazia sentido mudar.
Lourenço- Mas isso já nem está na net. Ninguém sabe do que estamos a falar.
Diogo- Só os verdadeiros... Os verdadeiros sabem...
MS- Andam a girar rumores que os Panado em breve vão anunciar a sua metamorfose para uma boys band... quem seria o Panado mais gato? E porquê?
Diogo- Eu acho que ele (O Lourenço) tem mais a cena de ser a... (risos)
Lourenço- Ser o quê?! (risos)
Diogo- A pretty face... (risos) É que o Bernardo já está set para a vida...
Lourenço- O Bernardo já está casado. E muito bem casado diga-se, com a Maria, a nossa fantástica ilustradora...
MS- Olá Maria! (acenando para a namorada do baterista, Bernardo Moniz)
Diogo- Mas acho que entre nós os dois ele (Lourenço) tem mais a personalidade disso... (risos)
Lourenço- Personalidade e a cara, já agora.
(AHAHAHAH)
MS- É do bigode não?
Lourenço- É um bocadinho de tudo.
MS- É dos gatos.
Diogo- É dos gatos.
MS- Houve alguns concertos de panado que foram amaldiçoados pelos deuses do rock...
Lourenço- É verdade. Ou pelos diabos...
MS- ...Como o clássico incidente na Timila das meias ou o recente desastre no Lounge... Alguma história gira para partilhar?
Lourenço- Assim de repente não sei, mas temos sempre encontros muito estranhos com os técnicos de som, são todos pessoas muito "únicas"!
Bernardo- Menos o do Tokyo... O do Tokyo era um bacano.
MS- Estava muita gente no Tokyo?
Bernardo- Por acaso estava fixe aquilo..
Diogo- Ya o sitio é bue pequenino, há bué pessoal que vai lá por aquilo ser o Tokyo...
Bernardo- Curti bastante desse concerto por acaso.
MS- Como é que surgiu o convite do Cláudio para irem gravar com ele?
Lourenço- Isso foi tudo uma situação bastante caricata... (risos) Tudo começou na Bistroteca quando eles (Pista) foram lá tocar o ano passado. Depois o Ramos que é muito próximo da banda...
MS- Ah sim! O Groupie-pseudo-manager, continuem.
(Muitos Risos)
Lourenço- Acho que isso descreveu na perfeição o Ramos. (mais risos) Mas ya, o Ramos estava a organizar o evento, e eles ficaram mais ou menos amigos, o Ramos e o Cláudio...
Diogo- Porque o Cláudio é alto bacano, é super na boa...
Lourenço- Depois o Ramos mostrou as nossas cenas ao Cláudio, o "Épê" aquelas malhas gravadas no móvel ainda com o tal gato...
MS- Também achámos incrível terem gravado um EP no móvel...
Diogo- Foi mais por necessidade... Não tínhamos literalmente acesso a nada, e gravámos no telefone.
Lourenço- E além disso, nós nunca tivémos intenções de mostrar aquilo a ninguém excepto os nossos amigos... Por isso, na altura, a qualidade das gravações nem sequer era um problema.
Bernardo- Sem dúvida, foi mais numa de nós próprios podermos ouvir as malhas em casa e ver como é que soava.
MS- Uma curiosidade: O móvel estava muito longe dos instrumentos?
Bernardo- Depende... Estava no meio da sala ou em cima de um dos amps.
Lourenço- Foi um bocado por tentativa e erro. Experimentávamos uma vez e se, por exemplo, a bateria ou a guitarra estivesse demasiado alta, metíamos o telemóvel um bocado mais longe do instrumento.
Bernardo- Era a nosso única preocupação na altura.
MS- Voltando ao Cláudio...
Lourenço- Sim... Depois fomos ao concerto de apresentação do albúm dos PISTA, "Bamboleio", porque o Cláudio tinha achado piada às malhas e disse para nós passarmos por lá. E depois acabou o concerto e nós fomos lá falar com o Cláudio no final, ele todo suado disse-nos"Curti bué das vossas malhas, têm de ir lá à garagem tocar" e depois conversa levou conversa, fomos à garagem dele tocar...
Diogo- Porque o Cláudio também estava bué numa de "quero experimentar produzir alguma coisa" e por acaso fomos nós.
Lourenço- Foi basicamente juntar o útil ao agradável.
MS- Então ele usou-vos como "Lab Rats" ou assim...
Diogo- Oh não, Se alguém usou alguém fomos nós a ele.
Bernardo- Completamente...
Lourenço- Mas foi algo super espontâneo. As coisas aconteceram assim, porque tiveram de acontecer. Acho que "usar" é uma palavra infeliz. Foi tudo muito natural.
Diogo- Porque eu sinto também que nós estamos muito na mesma onda interpessoal entendes? Damo-nos todos super bem.
Lourenço- Pode não ser tão visível para outras pessoas em termos musicais mas estamos completamente na mesma página, mesmo ele como produtor, acho que nos entendemos todos muito bem.
"A nossa relação com o Cláudio desenvolveu-se de forma muito natural e espontânea, nada pareceu forçado"
MS- Sentem que estão a crescer como músicos ao gravar com artista tão conceituado e respeitado como é o Cláudio?
Falem-me dessa experiência...
Lourenço- Respondendo à tua pergunta, sim. Mas mais que isso, eu acho que estamos a crescer como músicos, mas é mais de tocar e tocar e tocar... E com os concertos que falaste há bocado, onde estão 5 pessoas, ou um amp falha a meio do concerto, temos ganho imensa bagagem.
MS- Mas ele tem muita coisa para partilhar convosco...
Diogo- Isso é totalmente verdade.
Bernardo- Ele dá-nos muitas dicas sim... Ele ajudou-nos bastante com a gravação das faixas, a lidar com as pessoas em concertos, ainda agora estávamos a falar sobre o soundcheck...
Lourenço- Ele já anda nisto há muitos anos, e devido a isso mesmo, ele se calhar olha para certas coisas de uma maneira que nós ainda não olhamos, ou não damos a mesma importância. Nós queremos é tocar, e ele é do tipo "não meus, vejam lá isto"ou "tenham cuidado com isto"...
Vitor- Porque eles andam nisto há muito mais tempo que os Pista... Eles estão nisto há muito tempo...
Bernardo- A nossa relação com ele... A grande ajuda que ele nos deu foi nessa parte da produção. Nós quando fomos para lá já tínhamos as músicas feitas.
MS- Mas sentem que têm crescido desde a última vez que vieram cá ao Montijo?
Lourenço- Claro que sim. Isto do crescer... Esta é a primeira banda de todos nós. É a primeira vez que fizemos uma música em conjunto, a primeira vez que subimos a um palco, a primeira vez que gravámos coisas mais a sério. Por isso, há medida que o tempo passa e há medida que vamos dando mais concertos, vamos crescendo um bocadinho.... Mas sim, acho que somos muito mais banda do que éramos há um par de meses atrás.
Vitor- Acho que o crescer também tem a ver bastante com o teu crescimento como pessoa. Nós somos todos muito novos, estamos em fase de transição e os gostos vão mudando, é um bocado também acharmos a nossa direcção...
Quantos mais ou menos, desde o inicio do ano?
Diogo- Uns 20 na boa.
Lourenço- 20 desde Setembro, talvez... Mas, entre Setembro e Dezembro tivemos prai uns 4 concertos, e no inicio do ano até Março não tivemos nenhum, e só depois disso é que começámos a dar concertos todas as semanas.
Bernardo- Temos tido praticamente 1 concerto todas as semanas há 2 meses prai, o que para nós era impensável há bem pouco tempo atrás (risos).
Diogo- Mas repara, desses todos não foram todos como no Tokyo. Alias, e principalmente no inicio, houve concertos onde estavam tipo 5 pessoas.
Lourenço- Completamente. Houve concertos de merda. Concertos onde o pessoal do bar se estava completamente a marimbar para ti, concertos para 5 pessoas em sítios meio escondidos, concertos em sítios sem praticamente nenhum equipamento sonoro... E, em retrospectiva, acho que isso foi muito importante para nós como banda e ajudou nos a crescer imenso.
Bernardo- Como por exemplo o da Timilia, onde estavam lá os nossos amigos todos.
Diogo- E nessa fase, mais do que agora, era mais numa de nos habituarmos a estar em cima do palco e tocar para alguém do que propriamente dar um concerto.
"Houve concertos de merda, esses foram os mais importantes e os que nos ajudaram a crescer imenso como banda"
MS- Na Timília foi precisamente, a primeira vez que tive contacto com a vossa banda. Foi pena é o dono daquilo ser meio idiota...
Lourenço- Por falar nisso! Falaste em histórias há bocado, temos alta história com ele...
MS-Querem partilhar connosco? Lourenço- Aquilo foi tudo super estranho. Eu agora a olhar para trás, aquilo parece-me um sonho meio exótico.
Bernardo- Completamente...
Lourenço- Mas resumidamente, nós estávamos a fazer o soundcheck, o Ramos estava na mesa de som, e de repente, vê o seu espaço invadido por dois adolescentes apaixonados de 50 anos. (risos)
MS-Como assim?
Lourenço- A meio do soundcheck, o dono do bar juntamente com a sua bela namorada, começaram numa sessão de marmelanço à antiga mesmo em cima da mesa de som onde estava o Ramos. (risos)
Bernardo- O Ramos estava literalmente de braço esticado para não lhes tocar, enquanto fazia o nosso som. Eles estavam os dois mesmo em cima da mesa de som a curtirem a deles. (risos)
Lourenço- Só me lembro do Ramos perplexo, a não acreditar no que estava a acontecer. (risos)
Diogo- Eu acho é que eles queriam ir jantar, e isso foi a dica. (risos)
Lourenço- Não, meu. Aquilo é um modo de vida. Ou vives no limite ou não vives. (risos)
MS- Inacreditável. Mudando de assunto, porque é que as vossas músicas tem títulos portugueses e são cantadas em inglês como o "D. João"? Nunca pensaram em cantar inteiramente em inglês ou português, porquê um ep misturado, são alguma batedeira?
Diogo- Há muito por trás disso: Quando gravámos a cena, às vezes púnhamos títulos nas músicas só para nos lembrar-mos... E o tempo foi passando e essas músicas ficaram de tal forma associadas a esses nomes, que agora para nós já não fazia sentido mudar.
Bernardo- A cena da língua, foi o que saiu na altura enquanto estávamos a fazer as músicas, o que pareceu natural.
Lourenço- Mas nunca se pensou muito nisso, nunca houve uma conversa de "agora vamos cantar em inglês" ou "agora vamos fazer uma música em português"... Mas por acaso agora sinto que estamos muito mais confortáveis a cantar em português. Inclusive, a "Charopes" que já está cá fora, é cantada em português.
Diogo- É quase como outro instrumento se tu pensares bem, imagina um cantor francês ou alemão ou seja o que for, como não entendes o que ele está a dizer então associas a sua voz há de a um instrumento.
Lourenço- E tens artistas como o Devendra ou o Rodrigo Amarante que cantam em 3/4 línguas. Esse problema só existe, se tu o criares.
MS- Há 11/10 meses prai tocaram aqui no Montijo com outro projecto.
Bernardo- Eu e o Diogo tínhamos uma cena completamente diferente, ele tocava e eu cantava...
Lourenço- E como é que se chamava? (risos)
Bernardo- "Os Benfiquistas"... (risos)
Lourenço- (risos) Não a sério, se fores procurar à net no Bandcamp ou assim, vais encontrar "Os Benfiquistas"...
MS- Isso está na net? Foi gravado como?
Bernardo- Foi no telemóvel. Para variar.
Vitor- Era eu e a voz do Bernardo, porque ele tem uma voz muito bonita, a sério...
MS-Então quando é que surgiram os Panado?
Diogo- Foi logo a seguir à Bistroteca... A cena é que nós já no conhecemos todos há muitos anos, uns 5/6. E eu andava sempre a chatear-lhes para fazermos uma banda, só que eles nunca queriam. Depois fui fazendo umas canções na guitarra, onde o Bernardo cantava por cima e demos uns 2 concertos acústicos num bar de uma amigo. Mas o meu objectivo sempre foi o de ter uma banda, nós os três.
Lourenço- Mas em relação a essa pergunta... O Diogo e o Bernardo, mesmo depois da formação d'Os Benfiquistas, andavam me sempre a chatear para ir tocar com eles e eu, não sei bem porque, mas nunca sentia que o devia fazer. Depois houve a Bistroteca, organizada por putos como nós, com concertos espectaculares mesmo à porta de nossa (antiga) casa. E não sei, isso fez-me mesmo pensar "Bora lá tocar. Bora lá fazer cenas e o resto... o resto safoda".
Diogo- Passado uma semana, começámos a tocar.
MS- Vimos um vídeo vosso em que tocaram na Fbaul (Faculdade de Belas Artes), o Vítor estava a tocar com um amp de baixo pelo que eu ouvi...
Lourenço- Não não, eu é que estava a tocar com um amp de guitarra...
Diogo- E eu tava com um mic buéda merda, tipo à Elvis Presley.(risos)
MS- Falem-me um bocado desse gig, foi literalmente o vosso primeiro , não foi?
Lourenço- Foi. E foi só espetacular.
Bernardo- A malta estava bué recetiva e estava toda a gente a dançar... Foi do caralho.
Diogo- E depois eu rompo a corda! E depois eu meto a corda bué à pressa, e a corda volta a romper-se! (risos)
Lourenço- E nós chegamos lá e afinal não há amp de baixo... Depois já muito em cima da hora, tive que pedir emprestado o único amp de guitarra que havia. Toquei com aquilo com um som horrível, o amp quase a rebentar, a pastilhar por todo o lado...
Bernardo-Mas a malta tava toda a cagar-se, estava tudo a dançar e a curtir...
Lourenço- Foi do caralho. Por tudo.
Diogo- E depois como estávamos bué do tipo "Ok, não quero saber. Baza fazer esta merda como se pode", a malta viu bué que estávamos a tentar lidar com a situação e vibrou connosco e foi mesmo memorável...
Bernardo- O ambiente acima de tudo.
MS- Foi a primeira cena que meteram na net, isso também foi logo um BOOM gigante, foi o primeiro contacto que eu tive com a vossa banda e o de muita gente, ver logo aquela malta toda naquele video...
Lourenço- Sim, como te dissemos, aquilo foi mesmo o nosso primeiro concerto.
Vítor- Ya, a cover dos Cave Story, a parte final do "Southern Hype"...
Bernardo- Foi a primeira cena que quase toda a gente ouviu nossa...
Lourenço- Mas esse concerto foi mesmo fantástico, por tudo o que aconteceu, recordamos esse dia com muita saudade...
MS- Mudando de assunto. Já pensaram inscrever-se no "Portugal Got Talent"?
Lourenço- Fora de tangas, a mãe do Diogo está lhe sempre a dizer para ele ir a esses programas...
Diogo- É verdade.
"Vimos putos como nós, a fazer algo como foi o Bistroteca, e pensámos logo: Bora fazer cenas! O resto safoda...!"... Uma semana depois, os Panado nasceram"
Posteriormente, para além de invadir a entrevista, Cláudio invade também o concerto dos Panado
Vemos, de repente, o Cláudio Fernandes a invadir a entrevista de forma mais hilariante e pragmática possível
Cláudio- GRANDA BANDA, GRANDA BANDA! Porque ninguém está a gritar comigo?
Lourenço- Cá está ele...
Cláudio- Olhem, vou só em suma explicar-vos o verdadeiro significado da vida: Não há meu... Não há.
Cláudio- Isto está a gravar?
MS- Sempre.
Cláudio- Uuuuuuhhh, um dois, um dois...(testando o microfone) Estavam a falar do quê?
Lourenço- Estávamos a falar de...
"Os Panado, são altamente!", Cláudio Fernandes sobre Panado
Cláudio- Não, mas eu não descobri os Panado a sério, os Panado descobriram-se por si... A margem de progressão... do caralho.
MS- Haverá alguma forma de rotularem o vosso som que não roque felino? Há muita coisa que me vem à cabeça quando oiço malhas vossas, conseguiam adivinhar duas ou três referências que se comparem ao vosso som?
Diogo- É Roque Felino... Por causa do gato.
Bernardo- Mas qual gato! É a nossa sonoridade, a mim bate tudo certo... (interrompido)
E mais uma vez, de repente, Cláudio Fernandes partilha connosco um pouco de sabedoria.
Cláudio Fernandes- O problema das bandas é... o problema das bandas é quererem ter significado... As bandas existem, ponto.
MS- Toda a gente quer saber, para quando o "Épê" de panado? Quando é que sai!
Lourenço- Dia 37 de Junho.
Bernardo- Não sabemos ainda... (risos)
Diogo- Temos de falar com o nosso produtor. Tudo depende dele.
Cláudio- Eu não sou produtor, eu gravo!
Lourenço- Mas está para breve... Quem sabe o amanhã?...
MS- Já abriram para Pista, vão abrir para a semana para os Sunflowers... Falta os Panado abrirem para quem?
Lourenço- Para os Sonic Youth.
Bernardo- Para os Queen também...
Cláudio- Nãaaaaaao. Os Panado vão abrir...
Cláudio- Os Panado têm de abrir para Shellac e Metz. Vocês abriam bem para os Preoccupations também. (Ex Viet Cong).
Após esta referência falamos sobre a mudança do nome dos Preoccupations , onde se destaca a intervenção do Lourenço, que diz, e passo a citar: "São uns conas."
MS-Para finalizar. Iniciativas como o MontijoSound, são importantes porquê?
Diogo- É também aquilo que já tínhamos falado sobre levar a sério o que fazes...
Lourenço- ...Independentemente dos meios. Mais ou menos como nós.
Diogo- Todas as merdas começaram com a ideia de alguém que não tinha nada, a dizer: "bora fazer isto". Toda a gente começou no mesmo sítio.
Cláudio- A vontade. A vontade de fazer cenas acho que é o mais importante., e aquilo que eu vi nestes putos é que eles tão cheios de vontade de fazer cenas, isso é altamente respeitável.
Lourenço- Acho que os Media têm um papel fundamental na música, tal como os artistas, o técnico de luz ou o booker. E para a indústria funcionar correctamente, todos nós temos que fazer o nosso trabalho da melhor maneira possível, todas as etapas têm que ter pessoas competentes. Por isso, iniciativas como vocês, são sempre bem-vindas.
MS- Mandem os vossos cumprimentos para o MontijoSound malta!
Panado(+Cláudio) em coro- Grande beijoca para o MontijoSound !
Na passada sexta feira 13 a redação experienciou o contrário do infortúnio. Se o azar é um elemento comum nas vicissitudes da vida, teremos sempre a folgança irradiante dos PISTA, que muito nos tiveram para contar num paleio que envolveu humor negro, destinos tropicais e uma verdade inexpugnável: toda a gente gosta de festa. Cláudio Fernandes, Bruno Afonso, Ernesto Vitali e Nick conversaram com o Montijo Sound e o resultado está cá fora...
MS: O que é que mudou desde a altura em que puseram os pés no Bistroteca, no ano passado? Agora há um baixo que não existia e que marcou uma evolução na banda. Como é que isso se processou? Cláudio: É uma evolução em termos de som ao vivo... o baixo já existia lá, embora não tivesse sido gravado mas pronto, ele existia. Pá, então a certa altura decidimos... "Bora usá-lo ao vivo!", até porque era uma "marca" nossa mas... quem somos nós para criar uma marca? Então decidimos começar a usar um baixo ao vivo e o problema é que é viciante... e gostamos da companhia.
MS: De onde surgem as vossas músicas? Há músicas que são apenas instrumentais, como "Ar de Inverno" e "Bamboleio"... Essas músicas nascem do vazio ou é tudo intencional?
Cláudio: Por exemplo, há montes de malhas sem voz... da mesma forma que não gravámos baixo porque a voz não cresceu com a música... A música cresceu, não tinha voz e nós não sentimos necessidade de meter uma voz porque, por exemplo, o jogo de guitarras já era suficientemente vocal. Eu pelo menos não encalho muito com a cena de ter voz. Embora, nas últimas coisas tivemos algum cuidado especial para meter voz, ou existe uma ideia de voz a priori, mas houve coisas que também surgiram de ideias de voz como a "Bamboleio", é uma cena de voz. Sentimo-nos OK em só ter guitarras a fazer essa parte vocal da canção.
MS: "Bamboleio" trouxe um concerto de apresentação com vários artistas... Porquêtrazer BRO-X?
"Porque não trazer bro-x?"- questionaram os PISTA
Cláudio: Porque no fundo, no fundo há um BRO-X em cada um de nós. Ele faz parte de nós. Já tinha acontecido no Barreiro Rocks 2013, tocarmos uma malha e achámos fixe.
MS: Falando agora outra vez do baixo, expliquem-nos a vinda do Nick. Como é que surgiu o convite para ele se juntar a vocês? Bruno: Era o único!
Inicia-se um ataque ao Nick e por fim, depois de algumas intervenções, Cláudio admite o que todos esperávamos ouvir...
Cláudio: Eu vou admitir que estava com um copinho a mais (a propósito de ter tido a ideia de convidar o Nick). Bruno: Analisando a história dos PISTA, ele já conhecia o nosso trabalho, então não foi muito difícil chegar lá e dizer assim: "Queres participar?".
MS: Quais são as vossas maioresinfluênciasa nível musical, não necessariamente para o som dos PISTA? Bruno: Sinceramente, olha, eu já nem sei o que é que me influencia. Nos últimos dois anos posso dizer que quem mais me influenciou foi o Tony Allen do Fela Kuti.
Ernesto: Aquilo que me influencia é aquilo que me toca, o que me sensibiliza, qualquer tipo de música de onde eu possa espremer alguma coisa que me toque e que ache que me diga respeito e que eu respeite também, que admire dentro de qualquer estilo musical, basicamente. Não estou a ver assim estilos musicais que eu não goste, nem que seja punk pela energia, música clássica pela subtileza... Há sempre qualquer coisa boa a retirar da música.
Nick: Quarteto Marino Marini, o primeiro disco que eu ouvi na vida, Maradona e Rodney Mullen, um skater do caraças, tem aquele vídeo "People Are Strange", com os The Doors a tocar, buéda bom.
De seguida, Nick sugere um filme sobre a modalidade skate, editado pelas marcas e realizado por Spike Jonze, dando ênfase ao clip que tem como banda sonora "People Are Strange". Depois da resposta do Cláudio, visualizámos tão aclamada obra prima.
Cláudio: Não sei, eu sempre ouvi tanta coisa... Se me perguntares hoje, eu vou-te falar em Guns N' Roses mas não... Eu era muito miúdo do grunge... cenas assim, mas ao mesmo tempo, paradoxalmente, ouvia bué Guns N' Roses, aquilo a que tinha acesso. Por exemplo, ouvia a Super FM, na altura ouvia-se aquilo que passava na rádio. Era aquilo que tu ouvias, depois, dentro disso identificavas-te com algumas coisas mais, outras menos. Mas gosto de tudo. Sei lá, gosto de música eletrónica, gosto de hip hop, gosto de todos os tipos de rock. MS: Vocês costumam dançar ao som do vosso disco ou isso é de algum modo estranho ou impensável? Nick: Eu ouvi no ginásio para apanhar as músicas.
Cláudio: Eu ouço. Eu sou fã nº1, Nós somos todos fãs nº1 de PISTA. Mas por acaso nos últimos tempos não tenho ouvido tanto quanto isso, até porque temos andado a gravar coisas novas, percebe-las, retirar ou adicionar coisas. Estamos a pensar no disco seguinte mas sim, ouvimos muito a nossa própria música.
Os restantes consentem que também ouvem..
MS: Quando ouvem o "Bamboleio" onde é que se imaginam? Faixa por faixa? Cláudio: "Ar de Inverno" é UK, tens aqui uns riffs meio britânicos mas é um UK multicultural. A "Bamboleio" é uma música pimba, na verdade pode ser ali numa terra qualquer no interior, podia ser tocada num acordeão. A "3-0" é samba, show de bola, um Brasil freak. A "Sal mão" é Mali, a "Ivone" de repente estamos em Cleveland ou assim... A "A Tal Tropical" de repente estamos no Hawaii... só porque me apetece. A "Onduras" é América Latina, podemos realmente estar em "Honduras" (se bem que isso é América Central). Na "PUXA" estamos em Angola, estamos no Vale. "Boxe Fantasma" é europeu, Bairro das Palmeiras, estamos no ginásio. "Boxe Fantasma" é um exercício, chama-se mesmo boxe fantasma em que tens que imaginar que estás a fazer boxe contra alguém. Epá, e a "Queráute"... não estás na Alemanha. Imagina que tu tinhas um bairro, como há um maioritariamente angolano ou da Guiné ou S. Tomé. Imagina, estás perto do Alentejo Litoral... Estás em Aljezur! Freaks alemães que estão em Portugal há 40 anos.
Nick: Porque o Estado paga-lhes e eles podem estar a cultivar ganza e a viver.
MS: Queremos ouvir um relato do concerto mais divertido que tiveram até agora. Cláudio (após ter perguntado aos outros): Eu acho que foi para aí o segundo, no Talk Fest, poque estávamos bem e não havia pressão.
Nick: Parecíamos uns homens!
Cláudio: Ou então no Barreiro, em junho, quando eu estava "perdido". Deve ter sido muito divertido para vocês (risos gerais). Tivémos montes de azares, eu tava muito mal mas foi bué da bom. Estávamos ali desde as três da tarde com um calor infernal mas foi ótimo, estava toda a gente on fire. MS: Conseguem percepcionar a existência de uma base de fãs/fiéis seguidores, ou nunca pensaram muito nisso? Cláudio: Sabes qual é a coisa mais interessante em relação a PISTA, na minha opinião? Não há um segmento social que eu diga "estes são os fãs de PISTA". Qualquer pessoa pode ser fã de PISTA! Os meus pais gostam de PISTA. Eu acho interessante quando consegues chegar a pessoais de segmentos sociais tão distantes. É festa! Quem é que não gosta de festa?
Nick: Desde aquela criança inglesa abandonada no Algarve, pelos pais, até pessoas mais velhas, qualquer pessoa. Cláudio: Sabes que nós temos um nickname para o saco que transporta os tripés da bateria, dos pratos? Maddie.
MS: A sério? Porque nunca sabem onde é que está? Cláudio: Não... porque é uma coisa pesada, parece que estás a transportar o corpo da Maddie. Nós chamamos o "morto", eu depois posso mostrar o que é esse saco.
MS: Como faziam se vos dessem uma oportunidade utópica e única para mostrar a vossa música em qualquer lugar e para qualquer pessoa, em Portugal? O que é que decidiam? Cláudio: Gostava de mostrar ao Rui Veloso, só para lhe mostrar o que ele perdeu ao não ter dado continuidade a sonoridade do "Baile da Paróquia". É grande malha e aquele gajo... perdeu aquilo! "Baile da Paróquia"... podia ser um tema nosso. Na boa.
Dito isto, os PISTA limitam-se a trautear o tema de Rui Veloso, o qual pode ser ouvido aqui:
Nick: Eu via-me a fazer o primeiro grande concerto no Túnel do Marão, com uma associação de claustrofóbicos.
Cláudio: Já que estamos em utopias, gostava de convidar para uma participação... o António Variações. Mostrava-lhe isto com gosto e fazíamos três, quatro, cinco, seis, sete discos...
Nick: Eu gostava de pegar no Luís Represas, nos Delfins e no Rui Veloso. Os três fizeram músicas de apoio a Timor. Gostava de pegar neles, e que fossem pedir desculpas ao povo timorense. É um povo que sofreu.
Ernesto: Eu gostava de mostrar ao Represas também... A sério.
Nisto Ernesto é atacado com piadas fortes devido a sua manifestação de simpatia para com Represas.