segunda-feira, 27 de junho de 2016

Álbum da semana: Mighty Sands- Big Pink (vol. 1 e 2)

Em 2014 vimos Los Black Jews participarem no cobiçado Vodafone Band Scout, festival que projeta futuras promessas da música alternativa portuguesa. O solarento, western-smooth "DK" revelava todo o potencial da banda que só dois anos mais tarde estaria preparada para um primeiro longa duração e o fazem de forma mais memorável possível: Um conjunto de cassetes intitulado "Big Pink", que vem  mostrar uns re-batizados Mighty Sands como donos do rouge (neste caso rose) ,burlesco pop garageiro mais sofisticado que a cena portuguesa alguma vez sonharia ouvir.
 Embora semelhantes aos seus congéneres americanos Allah Las ou  Love, Mighty não soam tão preocupados com os arranjos de guitarra ou com a (eventual) visceralidade de certas faixas, como pode se ouvir nos últimos 30 segundos do Lucky Luck anthem "Love Son" pura distorção de guitarras e fuzz nos riffs dos refrões, no entanto é nas melodias e em certos momentos de pura harmonia sonora que conseguimos os momentos mais memoráveis de todo o disco.
 Do instrumental alegre e birdy-sinth de Martinee "Cacti" até ao "cowboyento" guiro-sampled* e harmonioso "100 Villains" até ao sexy, pitoresco e exótico "I'm So Thankful", que exibe uma química óbvia entre Luckee e Maree, até ao psich repleto de delay vocal "Ride The Curse" que acaba no super épico de 13 minutos "Mozambique", último registo que vem consolidar a composição consciente, os vocais angelicais de Teresa no refrão e a já mencionada simetria que cada instrumento propõe em cada faixa.
 Big Pink torna-se melhor a cada audição, há subtileza em cada instrumento que vai ficando mais nítida a cada replay, a perceção da letra vai-se tornando mais clara e porque não, o disco vai ficando tão rosa que um dia será apenas chamado de "Disco cor de rosa", e aí saberemos que chegará onde sempre esteve destinado. 

*Pareceu-me ouvir um Guiro, posso estar enganado...

Ouçam Big Pink vol.1 e Big Pink vol.2

domingo, 26 de junho de 2016

ZARCO libertam single "Português Azul"

A banda portuguesa de prog rock ZARCO libertou hoje o primeiro single, via bandcamp, intitulado "Português Azul". Zarco têm vindo a anunciar o lançamento de faixas gravadas há algum tempo na sua página de facebook, deixando os fãs numa espera intensa e algo irónica. Contudo, adiantam já que "mais tempestades virão"...




Ouçam aqui "Português Azul" de ZARCO

Faixa da semana: Surma- Maasai


Surma é o projeto de Débora Umbelino, compositora e multi instrumentista de Leiria, que nos vem a trazer uma das vozes mais cativantes que tive o prazer de ouvir nos últimos tempos, doçura depois mais tarde dissolvida em tons escuros, climas adversos, como pudemos escutar em "LO-FI"...
Olhando para a produção de Emanuel Botelho (Sensible Soccers), "Maasai" é só mais um espectro noturno que revela uma artista introspetiva mas segura em todos os instrumentos que utiliza para expressar-se de forma mais emblemática possível, embora estejamos a falar de música minimalista trancada por uma chave que só Surma possuí: Os sintetizadores misteriosos servem de bússola neste acordar pós-coma que nos deixa atordoados pelas cordas e pelos bpm impostos pelo seu drum machine que seguem cada heartbeat mais expetante, irrequieto e inseguro após entrarmos neste daydream... Os vocais etéreos e impercetíveis impedem-nos de acordar deste sonho, à medida que nos afundamos cada vez mais em Maasai sem um bilhete de retorno... Os compressores gelados hipnotizam e entre cada oscilação fazem-nos querer voltar a repetir toda esta viagem num loop que torna-se viciante e a seu tempo terebrante.
 Surma é uma pedra rara mas não é a única, no entanto a profundidade, intimidade e nervosismo acutilante que incuta no seu som, o dramatismo e teatralidade por trás da sua voz e a simplicidade que funde ambos torna-a numa das jóias mais promissoras da cena desde Sequin.
 O verão mal começa e já desejo acordar no próximo inverno...

Ouçam Maasai de Surma

quarta-feira, 22 de junho de 2016

ANOHNI e o sufocante «HOPELESSNESS»



Horas findadas após o dia mais longo com a noite mais curta, vejo-me debruçada na inevitável pressão académica que teima em prolongar-se. Mea culpa, a quem os pensamentos esquizofrénicos assombram quando me auto disciplino para o abençoado momento de concentração. O meu corpo só cede à obediência e à assertividade quando absorve a banda sonora certa e essa procura poder-se-á revelar sufocante, todo um tempo perdido para acalmar o inconsciente alarmado pelas lembranças e respetivas distorções que mais procuro reter nas portas da memória. Não foi há muito que essa demanda revelou-se em forma de pista, quando dei por mim a procrastinar pelo meu maioritariamente inútil feed de Facebook. Alguém, num dos meus grupos, tentava a sua sorte na venda de bilhetes para o concerto de ANOHNI. Não vou negar o teor tentador da proposta de negócio, porém tive que me debater com os prós e contras e acabar por levitar para mais perto da razão. Se as circunstâncias da minha vida não jogam a favor dessa experiência, deixar-me ludibriar pela sua obra pareceu-me a decisão mais acertada. Tudo isto antecipou toda uma caminhada espiritual, uma faixa de cada vez.
Esta voz entrelaça o seu voodoo imperceptível com um instrumental que a ampara sempre que se ouve o seu propositado fraquejo, qual sustentáculo semelhante a uma cama com lençóis de seda. Com apenas um LP, ANOHNI (voz dos Anthony & The Johnsons, grupo que desconhecia até à data) trouxe as minhas inseguranças à flor da pele por bronzear.

Como começar por explicar ANOHNI? Ora bem… Se o James Blake ligasse mais a política do que às paixões, teríamos ANOHNI. Penso que já se percebeu a ideia e automaticamente devem estar a desenvolver uma generalização redutora de tudo o que poderá ser a sua sonoridade. ANOHNI é uma artista transgénero que não poupa na violência lírica e sonora inerente à atualidade. O piano, que raramente é dispensado de qualquer uma das faixas, abraça a restante instrumentação eletrónica que decompõe as palavras cantadas . O álbum «Hopelessness» é vulnerável e cortante, intimidador sem ser efusivo, realista e violento enquanto transmite uma certa esperança. Sem esquecer que é angelical e quando falamos dos anjos não se olha a sexo.

«Drone Bomb Me» inicia esta profundidade inquieta como um aquecimento para qualquer cena dramática. As massagens estão feitas e a alma mais repousada, canta-se "Blow me from the mountains/And into the sea/Blow me from the side of the mountain/Blow my head off/Explode my crystal guts". A segunda faixa, com uma percussão tribal e uma orquestra de fundo deslumbrante, é definitivamente a cereja no topo do disco. «4 DEGREES» é a antítese completa do que o título elucida e chega a ter proporções flamejantes. Sem dúvida, a minha favorita.
«Watch Me» até podia ser sobre amor fraternal, mas é sobre o Governo Americano e voyeurismo, numa poesia que envolve preces e denúncias das maldades do mundo em que vivemos. Vale a pena ouvir esta com atenção, só para contemplar o desfecho destes pedidos.«I don't love you anymore» e «Obama» respiram insegurança e temor, sendo de uma tamanha violência que me forçou a parar o disco a meio para descomprimir com a comestível One Dance, do Drake (confesso este pecado e atribuo a culpa à publicidade do Spotify). «When Did You Separate Me from the Earth» é uma viagem espacial pelas estrelas e passo a destacar também «Marrow», o desfecho singelo para este álbum que, quer eu volte a ouvir ou não, primou pela frontalidade emocional.
ANOHNI fez por mim aquilo que eu não conseguia fazer: a sensação natural de que tudo está bem, mesmo que não acabe a bem.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Crítica: Mamihlapinatapai- Mamihlapinatapai I


Há já algum tempo João Correia ou como lhe chamam por estas bandas "Zé Bolachas" (vocais, guitarra), Paulo Rodrigues (bateria) e mais tarde Aboo Gani (baixo) vinham a desenvolver um projeto chamado Mamihlapinatapai, provavelmente quem estiver a ler isto demorará uns quantos meses a conseguir pronunciar este nome de origem Yaghan, que significa "duas pessoas olham uma para a outra sendo que ambas desejam que a outra pessoa faça o que ambos desejam mas nenhuma delas está disposta a fazê-lo", numa tradução própria. Alguns concertos no Montijo, nomeadamente na Feira Dona Edite ou para lá da ponte no Cá-Fusão deste ano deram algum hype ao trio de Acid Jazz Experimental muito pouco lúcido e com um frontman algo carismático, e agora apresentam-se ao mundo com um primeiro EP homónimo "Mamihlapinatapai I".
 Em termos sonoros não é o grupo mais complexo do mundo: Em "Linguadaluz I" um baixo groovy estabiliza por certo a bateria plate-full de Paulo, aqui e em quase todas as faixas. Aquilo que torna (eventualmente) estas faixas verdadeiramente fascinantes são a tenacidade de João, ora calmo e suave como o baixo que a acompanha, ora prolífero e violento, tudo isto quase de forma improvisada.
 Para além da capacidade de estruturarem melodias jazzy-groove, há uma certa frustração política em "Bolo de Nóz", depois convertida num comedy spoken divertido que só revela a personalidade carismática de João, que liberta toda a tensão e frustração que uma letra dessa natureza poderia carregar: "Digam aos políticos que nós queremos é bolo de noz, para nós, queremos subsídios em bolo de noz (...) queremos que o bolo de noz não tenha IVA a 23%, a 3 ou nenhum"...
 Para terminar com o alegre, Reggae-blasted rocksteady "Rejeitar", que solta mais escrita non-sense sobre uma possível história de amor na rua Tabu?
  Não é emblemático nem nada do género mas são faixas bem gravadas que apresentam temas singulares, seja na composição ou na própria concepção de cada faixa. Acima de tudo Mamihlapinatapai conseguem um cartão de visita que poderá ser importante para futuros concertos e toda esta leveza e falta de seriedade combinadas com uma sincronização perfeita de instrumentos, melodias alegres e coragem para experimentar acordes progressivamente podem, no futuro, colocar a banda num nicho onde poucos poderão alguma vez sonhar alcançar.

Ouçam Mamihlapinatapai I


segunda-feira, 20 de junho de 2016

PEIDO ESPACIAL #12 (último episódio!!!): RAQUEL LAINS!!!!!


E chegámos ao centro da galáxia, o fim da primeira aventura espacial, o terminus da nossa epopeia... 12 sugestões vos trouxemos durante 12 semanas, das Clementine aos Capitão Fausto, dos Panado ao Alex Chinaskee, e agora é a vez da Raquel Lains, a quem muito mas muito devemos, sem ela não estaríamos a fazer peidos espaciais nenhuns, vos garanto.
Dizemos que esta é a nossa demanda galáctica em busca de sugestões, peidos cósmicos e (descuidos, se preferirmos) de pessoas e bandas lindas e especiais. Pois não há ninguém melhor, mais lindo ou especial que Raquel Lains.  É ela quem larga o 12º Peido, o último da primeira temporada do PEIDO ESPACIAL. Traz-nos no seu texto os Mão Morta e recordações dos inícios da sua carreira (Let's Start a Fire), muito mais do que uma simples sugestão, mas toda uma inspiração, o verdadeiro Santo Graal, o elixir da inspiração no que toca a fazer coisas à volta da música. A tripulação do Montijo Sound volta para casa de barriga cheia, com a sensação de tarefa cumprida, a tempo de ver o resto do europeu de França e apoiar a seleção!




 "A Let's Start A Fire sempre foi um sonho que eu tive e que ia idealizando desde que comecei a trabalhar na música. Mas foi quando promovi o meu primeiro disco enquanto freelancer que tudo se tornou realidade, que fez todo o sentido e me confirmou qual o caminho a seguir. Esse disco foi o disco de Mão Morta “Nus” e aconteceu tudo muito naturalmente. Eu estava a tirar um curso de Produção e marketing discográfico na ETIC para o qual tive de fazer um trabalho em que teria de escolher uma banda e analisar a sua imagem. A minha escolha, lógica enquanto fã também, foi os Mão Morta. Queria muito falar com a banda para poder fazer o melhor trabalho possível e, para grande espanto meu, a banda deu-me resposta imediata ao meu email e pedido. O trabalho ficou incrível e eu auto propus-me trabalhar o que a banda quisesse, quando quisesse. Afinal, era fã dos Mão Morta antes do trabalho, ainda mais fã fiquei após o trabalho. E quem não sonhava trabalhar os Mão Morta? Mais espanto tive quando me disseram que tinham um disco novo para o qual precisavam duma promotora e me perguntaram se o queria fazer. CLARO que sim. Tudo começou aí… A Let’s Start A Fire nasceu aí… com o primeiro disco que promovi e com os Mão Morta que decidiram apostar em mim para a promoção do seu disco. E que correu excelentemente bem, aliás, não podia ter corrido melhor. Depois desse disco, trabalhei outros discos da banda e muitos discos da Cobra Discos, editora do Adolfo Luxúria Caníbal, António Rafael e Miguel Pedro. O meu carinho pelos Mão Morta é imensurável e o meu agradecimento eterno. Esta música que vos apresento é desse disco e é talvez a que mais me toca… Foi-me enviada, inclusive, numa compilação do meu namorado na altura que vivia muito longe… Os amores também batem certo pela música que ouves. Ouvi e ouço este disco muitas vezes, diz-me como me tornei no que sou hoje. E ser quem sou por os Mão Morta terem apostado em mim, enche-me o peito e faz de mim uma pessoa feliz."




Agradecimentos:
Raquel Lains

MontijoSound 2016

domingo, 19 de junho de 2016

Álbum da semana: Sun Blossoms (homónimo)

Antes de mais, não é fácil escrever sobre discos desta subtileza e sensibilidade. Também não é comum ver, em tão tenra idade, alguém com o dom de Alexandre Fernandes. Parece datado mas reparem, Kevin já tinha os Impala com 14/15 anos antes de se tornarem no protótipo da nova cultura independente. Com 15 anos Alexandre já compunha, gravava e mexia com pedais e layers de reverb. O background é sem duvida favorável.
 Em Setembro de 2015, com 17/18 anos de idade (já), Sun Blossoms (disco de estreia homónimo) saí pelas mãos da Revolve , label habituada a ter outros nomes psicó-trópicos no catálogo (Pontiak ou Toulouse) e que estreia! Sem soar 100% similar aos seus contemporâneos, Alex oferece-nos faixas lentas e aéreas, melodias carregadas de vocais nublados, tímidos... Afinal ele era um adolescente quando gravou todas estas 10 faixas sozinho, no seu quarto.
 A cada faixa, Alex vai aperfeiçoando as mecânicas básicas de uma canção pop orelhuda e peganhenta, mas sem soar tão convencional. "Flower Eyes" soa a imobiliário, Alex usa e abusa da repetição como forma de hipnose nos seus acordes gentis e por vezes fuzzentos, como em "Happy", que parece mais ser uma contradição: Ele não fala de felicidade ou de como é feliz, ele explica como o poderia ter sido. Ainda na ironia, ouve-se um fuzz que se contradiz com os acordes verdes e minimalistas, tudo isto sem parecer hostil ou volátil mas sente-se a melancolia, a frustração nos vocais. Antes em "Friend" Alex toca de forma resoluta cordas jangly e na ponte riffs Mondanile-ear-buzz, após o interlúdio que dá nome à natureza de todas estas faixas, "Dream" que mais poderia ser "Dreamy". Depois dessas, o disco afoga-se em mais slackness e depressão mas nunca tensão, em "Like I Do" ou "Grow", o sunshine pop de "Seeds" envolto numa nebulosa de ruído inaudível que capta Melted Toys ou melted noise, o feedback-delay-drenched "Tonight" e o instrumental folk de "Flow" como chave de ouro.
A beleza reside na inocência dos vocais etéreos, a ingenuidade das guitarras de três acordes que sem o serem de todo, soam a algo complexo e estudado e na facilidade que Alex teve em explorar certos arranjos inconvencionais. Haverá dois, três, até quatro discos de Sun Blossoms, nada soará tão orgânico e profundo que esta doce estreia carregada de milésimas possibilidades.

Ouçam Sun Blossoms